A Irmandade de Ísis

Recomendamos que leia, previamente, o post sobre as Escolas de Mistérios.

O culto de Ísis foi um dos mais importantes da Antiguidade, não só no Egito mas até em Roma, moldado pelo sincretismo helênico, sofrendo as influências do Zoroastrismo. Ísis era vista por muitos como a deusa das deusas, como podemos ler no testemunho de Lúcio Apoleio (125-170 d.C.), um iniciado nos seus mistérios, a passagem do seu livro “Metamorfoses ou O asno de ouro”. Livro 11, Cap 47, em que relata um sonho em que Ísis lhe aparecia:

“Presta atenção Lúcio, estou a chegar, os teus choros e preces levam-me a ir em teu socorro. Eu sou a mãe de todas as coisas, a senhora do universo a que governa todos os elementos, a progenitora inicial do mundo, chefe do poder divino, Rainha dos Céus, o primeiro dos deuses celestiais: obedecem ao meu comando os planetas, os ventos dos mares e o silêncio do inferno; o meu nome e divindade é adorada por todo o mundo nas mais diversas maneiras, nos mais diversos costumes e com muitos nomes… sou Artemis, Afrodite, Prosérpina, e em Elêusis chamam-me a Rainha do Milho… Os Egípcios …adoram-me e chamam-se a Rainha Ísis…. Deixa, pois, as tuas lágrimas e queixumes… e prepara-te para seguir as minhas ordens”.

A Irmandade de Ísis é tida como a mais antiga Escola de Mistérios.

Reproduzimos uma versão do mito central de Ísis e Osíris, seguindo de perto a versão de Plutarco em Ísis e Osíris, Moralia.

“Osíris, governante do Egito, tornou-se muito popular entre os seus súditos. Seu irmão Set, com ciúmes da popularidade de Osíris tentou várias vezes assassiná-lo, sem êxito. Finalmente Set, ajudado pela rainha da Etiópia, Aso, elaborou um sofisticado plano que lhe permitiu iludir Osíris: mandou a Tufão que construísse uma arca, com o tamanho exato do seu irmão, bonita e ornamentada. Organizou, então, uma grande festa, para a qual convidou Ísis e Osíris, e outras setenta e duas personagens.” (Plutarco, in Moralia, Ísis e Osíris, refere-se-lhes com seus coniventes)

No auge da festa apresentou a arca e anunciou a ofertaria a quem nela coubesse. Todos os convidados a experimentaram mas a nenhuma ficava bem, até que chegou a vez de Osíris que se meteu dentro. De imediato Set e seus cúmplices fecharam a tampa, e selaram a arca com chumbo derretido. Assim fechada, atiraram-na ao Rio Nilo.

Os primeiros a saber da situação foram Pan e Sátiro, que viviam na região onde a arca foi atirada ao rio, ficando consternados e confusos (pânico viria daí).

Ísis, estranhando o desaparecimento do marido procurou-o por todo o Egito e no mar, inquirindo todos os que encontrava. Foram umas crianças que lhe indicaram o local onde a arca fora arremessada ao Nilo.

A ela juntou-se sua irmã Neftis que abandonou seu marido Set, de quem não gostava, por estar enamorada de Osíris. Este, julgando deitar-se com Ísis, havia-a engravidado, tendo esta dado à luz uma criança, que escondeu.  Entretanto, Ísis, ajudada por um cão procurou e encontrou a criança, fazendo-a sua guardiã e dos deuses, como um cão guarda as pessoas, dando-lhe o nome de Anúbis.

Finalmente soube por inspiração divina de Rumor, que a arca estava bem longe, para onde a corrente do Nilo a levara, em Biblos (atual Líbano), entrelaçada nas raízes de um tamarisco que crescera anormalmente, e que, entretanto, fora usado como um pilar no palácio do Rei. Sentou-se junto a uma fonte carpindo as suas mágoas e não falando a ninguém, exceto às aias da rainha de Biblos, a quem tratou com cortesia e amabilidade, impregnando-as com um perfume de ambrósia que exalava de seu próprio corpo. Ao saber disso a rainha, curiosa, mandou-a chamar, entregando-lhe seu filho para cuidar. O que ela fazia dando-lhe de mamar do seu polegar, e queimando-o aos poucos todas as noites enquanto assumia a forma de uma andorinha e voava em redor do pilar, carpindo. Quando a rainha viu seu filho arder deu um grito, que lhe retirou a imortalidade. Foi então que Ísis se deu a conhecer e pediu o pilar para dele retirar a arca, o que fez facilmente, enrolando-a com panos de linho e aspergindo-a com seu perfume. Com a ajuda do filho mais velho dos reis, pôs a arca num barco e voltou com ela para fazer um funeral condigno a seu esposo.

Pensando ir ter com o filho, e com receio de Set, enterrou a arca num pântano junto ao Nilo. Infelizmente para Ísis, Set descobriu-a, por acaso, enquanto caçava, reconheceu o corpo, e, furioso cortou-o em 14 partes que espalhou por diferentes lugares, por todo o Egito, tendo atirado o pênis ao Rio, o qual foi, de imediato, comido por um peixe.

temple of Isis detail

Ísis teve de reiniciar a busca, usando um barco de papiro para se mover no pântano, tendo agora de procurar por todo o lado as diferentes partes do corpo de Osíris. Encontrou-as todas, com exceção do pênis.

Tratou de recompor o corpo do marido, substituindo a parte em falta por um falo de ouro. Finda a recomposição embrulhou-o com ligaduras. Então, expirando para dentro do corpo de Osíris, insuflou-lhe vida (em uma das versões é então que concebe de Osíris; na versão de Plutarco o filho já havia nascido, e Ísis não recompôs o corpo de Osíris, antes foi enterrando cada pedaço onde o encontrava, o que explicava os muitos sepulcros do mesmo).

Entretanto Hórus, escondido no delta no Nilo, foi educado no maior dos segredos, preparando-se com esmero e paciência como sucessor do rei assassinado, enquanto sua mãe Ísis o cobria com a impenetrável couraça dos seus conjuros, esperando até que chegasse a hora da vingança. Hórus, logo que adolescente, querendo vingar a morte de seu pai, fez guerra ao tio. Nesse combate Hórus saiu vitorioso e aprisionou Set, que entregou a Ísis, que todavia o libertou, o que causou a fúria de Hórus que se virou contra a mãe, retirando-lhe o diadema real da cabeça. Mas Hermes, admirador de Ísis, substituiu-o por um capacete em forma de vaca.

Set acusou Hórus de ilegitimidade sucessória, mas, com a ajuda de Hermes, este conseguiu que os deuses dirimissem o conflito estabelecendo:

– Osíris recuperava o reino que teve em vida, mais a parte do reino que pertencera a Set (ou seja, todo o Egito). É também nomeado deus do mundo subterrâneo e dos mortos;

– Hórus é reconhecido como sucessor de Osíris, e passa a governar todo o Egito por direto divino; (Na versão menfita o Faraó Menés – cerca 3.000 A.C. – é equiparado a Hórus)

– Set é nomeado Rei dos desertos do caos e do mal.

Nesta Escola de Mistérios de Ísis e Osíris, os conhecimentos codificados, reais, só eram dados aos iniciados (“coisas escondidas sob o manto de mistérios e imitações”, como diz Plutarco). E deve ser visto como uma “representação, ou melhor, como uma reflexão, de uma outra realidade” (idem).

Certamente que tem a ver com a cosmogonia e teogonia egípcia, centrada no Rio Nilo, fonte de vida e alimento dos homens. Talvez, também, com uma história mítica do Egipto. O certo é que os sacerdotes eram ciosos dos seus conhecimentos e do segrego em torno dos mesmos.

O mito de Isis e Osíris era dramatizado aos novos iniciados da Irmandade de Isis, assim como a lenda de Hiram é encenada nas Lojas Maçônicas.

Referência Bibliográfica

OLIVEIRA, C. de. Antiguidade: Crenças e Escolas de Mistérios, 2. ed. Londrina: Ed Maçônica A Trolha, 2013, 208 p. (Coleção Cadernos Humanitas).

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11 Comentários


  1. Muito bom texto, porém acredito que a primeira imagem é de Maat e não de Isis. Abraços

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  2. Prezado Daniel!
    A Deusa Isis é sempre o pano de fundo, porque ora se apropria das qualidades da justiça, da verdade, da maternidade e, assim por diante.
    att

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  3. História mitológica muito linda!
    É curioso ver como os mistos das diversas civilizações ecoam entre sí, guardando traços muito significativos.

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  4. impressionante a riqueza de detalhes sobre osíris íssis algo extra físico nos que revelar a profundeza que é a sagrada mitologia egpcia.muito obrigado

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  5. Prezado Ir.: Fidélis, o texto é muito rico e didático, os detalhes quanto às imagens, sempre há controvérsia, até por que, a cada escavação e descoberta de novos quadros pictóricos nas paredes internas das cidades-túmulo, novas divindades ou aspectos das já conhecidas são reveladas.
    Gratidão. Paz Profunda!
    Elisangela G.:, historiadora.

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