A Tarefa do Alquimista

alchemy symbol on a blackboard

Os autores que escrevem sobre Alquimia têm o hábito de fazer tantos comentários preliminares que suas obras praticamente dispensam a necessidade de um prefácio, a não ser que o Editor se proponha a revelar os segredos que o Autor é tão cuidadoso em esconder. Devo, de imediato, explicar que não estou preparado para fazer isso; entretanto, posso, com vantagem, chamar sua atenção para as outras ramificações da ciência Oculta, demonstrar o valor da Analogia em nossa busca pelo real significado dos mistérios do homem e sua relação com o Universo.

O processo da transmutação, que exibe uma série de cores, relembra a Religião dos egípcios, simbolizando, como o fez, a negrura da noite, as cores do arco-íris do alvorecer, a brancura do meio-dia e o brilho vermelho do anoitecer. O primeiro estágio desse simbolismo faz alusão à negrura da ignorância, à caótica escuridão do homem, que rejeita as chaves para os segredos do Universo, que são encontradas nas cores do arco-íris; para as vibrações do som, para os aromas, gostos, sentimentos e impressões psíquicas sutis. Quando a mente do homem começa a entender a ordem e a relação de tais impressões de sentido, ele passa da escuridão da ignorância para a luz branca da sabedoria, e talvez, por fim, alcance a imperial púrpura que veste o eleito.

Para fazer isso ele deve, dentro de si mesmo, possuir o divino dom do desejo do saber; pois é através dessa faculdade que ele se eleva acima das preocupações da vida. O homem cuja curiosidade o leva da contemplação da manifestação à contemplação das suas causas é aquele cujos instintos o estão preparando para empreender a Grande Obra.

O contentamento é fatal; o homem que está satisfeito com qualquer coisa, que não sente em seus momentos mais bem sucedidos, durante os mais sagrados prazeres terrenos, um profundo senso de falta e desapontamento, jamais encontrará a Pedra dos Sábios – a verdadeira sabedoria e a felicidade perfeita.

Os felizes são suficientemente raros, no entanto, para que tenhamos a esperança de que poucos dos nossos leitores desistirão do estudo da Alquimia pelo que dissemos. Fomos todos ensinados a olhar com horror para a cabeça da Medusa, com serpentes se encontrando ao redor de seu rosto; tal visão aterradora transformava em pedra todos os que olhavam para ela. Entretanto, se desejamos aprender a sabedoria secreta das eras, devemos aprender a ansiar por um vislumbre daqueles olhos maravilhosos, que nos conferirá o dom da indiferença aos prazeres e tristezas pessoais. Pois o homem sábio deve ser como uma pedra preciosa; um centro de luz para todos aqueles que se aproximam dele; dando alegria aos outros; pois ele contém a imagem da maior alegria em si mesmo; nada desejando do mundo, retirando sua inspiração da luz suprema – a “Deusa da Sabedoria” que usa a cabeça coroada da serpente sobre o escudo.

Robert Fludd disse muito bem: “Sede vós transformados de pedras mortas em pedras filosóficas. Sede igual a Deus. Vós ouvis essas coisas, mas não acreditais. Ó miseráveis mortais, que tão ansiosamente correm atrás da própria ruína”.

Depois, o filósofo salienta a futilidade do homem comum de objetivos mesquinhos e vontade fraca, jamais atingindo o objetivo da mais alta, ou nesse sentido, da mais baixa Alquimia.

“Ó miserável, serás tu mais feliz? Ó orgulhoso, serás tu elevado acima dos círculos deste mundo?

“Ó ambicioso, comandarás tu no Céu acima desta terra e de teu corpo escuro?

“Ó indigno, realizarás tu todos os milagres?

“Saibais vós rejeitados, de que natureza é, antes de buscá-lo”.

Então chegamos ao antigo ensinamento, GNOTHI SAUTON – Conhece a ti mesmo; até que, através de profundos pensamentos e meditação, as palavras tenham se tornado mais do que palavras para ti; e até que tu as tenha analisado, separado, transposto em todas as formas concebíveis e finalmente extraído delas sua quintessência e significação espiritual, tu não entenderás nenhuma palavra que os filósofos antigos disseram a ti.

Tomemos, agora, o significado livre ligado a uma palavra como imaginação; nestes dias materialistas, ela tornou-se sinônimo de fantasia extravagante ou mentira: mas, ouçamos o que Paracelso tem a dizer sobre a imaginação como uma manifestação oculta de poder:

O homem tem uma oficina visível e uma invisível. A visível é seu corpo; a invisível, sua imaginação… A imaginação é um sol na alma do homem agindo em sua própria esfera, como o sol em nosso sistema age sobre a terra. Onde quer que este brilhe, os germes plantados no solo crescem e a vegetação nasce. A imaginação age de um modo semelhante sobre a alma, e traz formas de vida à existência… O Espírito é o mestre; a imaginação é o instrumento; e o corpo, o material plástico. A imaginação é o poder pelo qual a vontade forma entidades siderais a partir dos pensamentos; ela pode criar ou curar doenças.

– Paracelso

Talvez essa passagem traga uma nova luz àqueles que ultimamente trataram tal faculdade com tanta desconsideração quando lidaram com o tema do hipnotismo.

Na verdade, a Imaginação é o poder de formar imagens em nossas mentes. É o desenvolvimento e a intensificação de uma ideia que existe em primeiro lugar e é, então, concebida passivamente na esfera do pensamento. Então a mente (percebendo que a ideia pode ser usada) traz o desejo à ação, que é desenvolvido em um ato de Vontade, e isso converte a concepção passiva da ideia em uma Imaginação ativa. Assim começa o processo mágico, a comunicação não deve ser divulgada.

Apenas acrescentaremos ao assunto os dizeres de Eliphas Levi:

A primeira matéria do Magnum Opus está dentro e ao redor de nós, e a vontade inteligente, que assimila luz, dirige a operação da forma substancial, e somente emprega a química como um instrumento bem secundário.

– Eliphas Levi

A Inquirição sugestiva, publicada um século antes do trabalho que ora estudamos, chama atenção para o método que deve ser empregado na análise exaustiva da natureza do homem, tão necessária à conclusão da grande obra. O texto diz:

A Metempsicose retira a identidade humana (ou consciência) de uma existência animal para os elementos etéreos de sua formação original.

Isso significa que, pensando interiormente com uma mente calma e filosófica, podemos passar da vida manifestada que vemos e sentimos ao poder motivo dela; e, finalmente, à causa do poder motivo; do mundano ao supra mundano; do intelectual ao inteligível; da terra ao firmamento; da água aos raios ígneos de calor emergindo da luz central que é a fonte de todas as coisas.

A mesma obra continua:

Esses elementos são os fundamentos universais da natureza: somente na forma Humana eles podem atingir a supremacia da razão que retorna à sua primeira causa.

A razão é luz que nos guia. Queremos rapidamente acrescentar o quão necessário é distinguir entre falsa razão e a razão Celestial que percebemos quando a intuição é purificada e nos elevamos acima das paixões inferiores. A falsa razão é meramente uma imagem criada por nossas forças desequilibradas para nos justificar na prática do mal. Foi muito bem dito que, quando procuramos nos justificar apresentando razões para nossos atos, é porque fizemos alguma coisa da qual secretamente temos vergonha.

A Razão é a luz clara que desce sobre nós daquele que está acima de qualquer fingimento. Foi uma comunhão com essa faculdade que Saint Thomas de Kempis desejou quando falou, àqueles que o detinham, que ele deveria deixá-los, pois alguém o esperava em sua cela. A falsa razão procura justificar a si mesma com muitos argumentos. A Razão Pura conhece a Verdade, e pode se dar ao luxo de ficar em silêncio.

Assim prossegue a Inquirição sugestiva:

Somente na forma Humana é possível compreender a forma Divina; quando isso acontece por meio de um crescimento triplo de Luz no entendimento conscientemente aliado, uma quarta forma é emanada, verdadeira, divina, sendo a imagem expressa de sua pessoa magicamente retratada.

Acreditamos já termos dito o suficiente para demonstrar que a tarefa do Alquimista não é fácil. Não temos esperança de que aqueles que ainda retêm um absorvedor interesse no mundo sejam bem sucedidos. Os Adeptos podem estar no mundo, mas não ser do mundo. A Alquimia é uma dura feitora, ela exige dos aprendizes nada menos do que a vida; em seu nome, você deve realizar os doze trabalhos de Hércules; por ela, deve descer ao Inferno; por ela, deve subir ao Céu. Você deve ter força e paciência, nada deve atemorizá-lo; as alegrias do Nirvana não devem tentá-lo; após escolher sua obra você deve, para esse fim, purificar-se dos desejos perecíveis e trazer a luz dos iluminados, para que ela irradie sobre você aqui na Terra. Esse é o trabalho do Alquimista; seu ideal verdadeiro é também o mais alto ideal da Teosofia Oriental; escolher uma vida que o fará entrar em contato com as tristezas de sua raça em vez de aceitar o Nirvana que se abre para ele; e, como outros Salvadores do mundo, manter-se manifestado como um elo vivo entre a natureza superior e a terrena.

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11 Comentários


    1. Realmente palavras de extrema grandeza, toda me fizeram ser mais realista com a arte da atenção em realiza as coisas. Ao mesmo tempo que me trouxe energia para ser capaz de lapidar meu potencial de raciocínio e ação física e mental!!! Parabéns!!!!

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    2. são artigos filosóficos de extrema beleza espiritual…e sua metodologia de nivel elevado e de boa leitura..

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  1. Muito bonito o pensamento de Paracelso, conhecendo apenas o que cita os livros didáticos, nunca pensamos que essa pessoa tinha uma visão tão apurada das condições humanas, e conceitos tão claro e simples de imaginação, espiritualidade e outras características inerentes a cada um de nós!
    Parabéns pelo texto, foi um bom serviço!

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  2. Belo, inspirador e difícil texto.
    Uma tarefa árdua a desconstrução dos condicionamentos que nos boicotam para a vontade inteligente que assimila a luz. Mas a busca deve ser constante, de dentro para fora.
    Parabéns!

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  3. Obrigado pelo texto acrescentando coragem a aventura do conhecimento pela busca.

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  4. Muito lindo esse texto sobre a alquimia,ele nos da uma grande dimenção doe como temos muito a aprender sobre nós mesmos.

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  5. A ESCADA
    Você pode descer, é mais fácil, mas arriscado. Subir é mais árduo, mas seguro. Cada degrau deve ser assimilado perfeitamente, disto depende o acesso aos demais. São doze, as horas do dia, mas podem chegar a vinte e quatro. A primeira, e principal, é o Preparatio.

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