Alquimia – Um breve ensaio

alquimia - um breve ensaio

A propósito do “oleiro demiurgo” e do alquimista, “a função soteriológica dos mitos nasce sempre de uma prática”. Mircea Eliade, na sua obra capital sobre a Alquimia – “Ferreiros e Alquimistas” – fundamenta exaustivamente esta tese, trazendo-nos uma visão clara – na senda de René Alleau, nos “Aspects de L’Alchimie Traditionelle” – daquilo que é a experiência alquímica: a sacralidade da matéria e das suas transformações, bem como a experiência que delas tem o operador.

A natureza profunda da Arte de Hermes é a vibração, em uníssono, da matéria, do operador e do Cosmos; esta é uma visão tradicional – melhor, primordial – que apenas parecerá estranha à nossa mentalidade analítica e separadora, oposta à das correspondências, das analogias e das sínteses. Analogamente, quer o discurso alquímico se situe ao nível simbólico, quer a nível operativo ou especulativo, permanecerá sempre como o reflexo da unidade intrínseca da alquimia.

Portanto, a alquimia é, desde logo, a experiência da unidade. Mas essa experiência é feita, dramaticamente, através da manifestação dual da realidade no nosso “mundo sublunar”. O caminho alquímico é aquele que vai do “1” ao “2” e do “2” ao “3”; não se trata, pois, de um dualismo (maniqueísta, cartesiano ou estruturalista), mas de uma “dualidade” que se supera a si própria por meio de um mediador: o “3”.

A mediação alquímica – o “sal” que permite a conjunção das duas naturezas contrárias, o “enxofre” e o “mercúrio” – é dupla: horizontal, unindo o “masculino” e o “feminino” a fim de obter o andrógino, e vertical, unindo “o que está em cima” (o Logos, o espírito Universal) com “o que está embaixo”, para espiritualizar a “matéria” e, concomitantemente, corporificar o “espírito”. Forma-se assim, em consequência desta dupla “hierogamia”, uma cruz (o “4”), no centro da qual se encontra o coração – o “5” do microcosmos ou a “quinta essência” – que constitui o retorno à unidade (5 + 1 = 6, o “6” do macrocosmos).

Esta concepção operativa de caráter ternário parece começar a ter eco nas ciências humanas dos nossos dias, com as contribuições de Leach (A diversidade da Antropologia) e mesmo, em alguma medida, de Levi-Strauss (em Le cru et le cuit); mas a de Edgar Morin e, sobretudo, a de Gilbert Durand, em cuja obra “o regime sintético” do imaginário realiza a “coincidência oppositorum” (Jung) dos regimes “diurnos” e “noturnos”, presente na maior parte dos mitos.

O processo iniciático alquímico desenrola-se também em termos daquilo que Jung denominou da “individuação” – processo de crescimento e harmonização psíquicos – mas é Henry Corbin, no decorrer da sua extensa obra sobre o esoterismo islâmico, que desenvolve um conceito que tem muitíssimo a ver com a iniciação alquímica: o “imaginal” (o qual transcende a mera imaginação psíquica). O correlativo “mundus imaginalis” é o mundo intermediário entre o sensível (“physys”) e o inteligível (“noos”, “pneuma”), entre o “imaginário” e o “simbólico”, mundo intermediário das imagens arquetípicas – da “imaginação creadora” – mundo da Alma (individual ou do Mundo, “Anima Mundi”), ao mesmo tempo “Terra celeste” e “Corpo de Ressurreição”.

Mas, como se desenvolverá o processo alquímico, de modo a permitir a dupla operação de “transformar em idéias as coisas exteriores e as coisas exteriores em idéias”, de acordo com o axioma expresso por R. Alleau: “tudo o que é observável é simbólico e tudo o que é simbólico é observável”? Desde logo, como em todo o processo iniciático, é preciso passar pela fase da “morte”, da “abertura” – o “caos alquímico”, em que se dá a  “separatio” dos elementos, o “solve”, ou “nigredo” – à qual se sucede a, agora possível, “informação” (“consciência-conhecimento”) da “matéria” pelo Logos – a “purificação”, a “sublimação”, o “albedo” – e que permitirá uma nova “estruturação” (“consciência-organização”) – o “rubedo”, “conjuntio”, ou “coagula”, a qual conduzirá à “Pedra Filosofal”.

Curiosamente, segundo a ciência atual – por intermédio dos trabalhos de um dos seus maiores expoentes, Ilia Prigoggine – a criação físico-química de estruturas dá-se através das seguintes etapas, cuja analogia com as do processo alquímico é notável:

  • O sistema deve estar “aberto” (o “solve”);
  • Deve verificar-se uma “flutuação” de algum parâmetro (o que corresponde à etapa da “informação” pelo Logos ou pelo Espírito Universal);
  • É necessário que a flutuação se amplifique para dar origem à criação (“poiesis”) de uma nova forma de organização ou de estrutura (o “coagula”).

Esta analogia não deixa de surpreender pela constatação do acordo entre a Tradição e os dados da ciência moderna, mas o “escândalo” é atenuado se nos lembrarmos de que a alquimia é, no fundo, uma “química poética” (creadora).

Ora as reações estudadas por Prigogine – e que seguem o “percurso” atrás descrito – são criadoras (poéticas), não só no sentido em que geram estruturas espaço-temporais – de grande beleza! – mas também porque servem de modelo para as reações pré-bióticas; o que tem muito a ver com o nosso tema, uma vez que o objetivo da alquimia – uma “química sagrada” que pretende transformar, transmutar, o operador, a matéria e o cosmos – é (re)despertar a Vida na matéria e, ao mesmo tempo, (re)criar a Vida dentro do operador…

2 Comentários


  1. Boa tarde!

    Primeiramente, gostaria de agradecer a boa vontade e prática de disponibilizar vosso conhecimento aos demais que querem e anseiam alcançar a verdade (e , até mesmo aqueles que somente sentem curiosidade).

    Em segundo lugar, desculpe-me a ignorância, mas pelo que entendi de minhas recentes e ainda poucas leituras, antes de qualquer operação, o alquimista deve suceder em transmutar a si mesmo, estou certo? Logo, todas as operações envolvem também uma compreensão, separação e reorganização intrínseca da pessoa que almeja alcançar a Grande Obra.

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  2. Boa noite. Sou professor de Ciências no ensino básico e adepto da Umbanda Sagrada. Há mais ou menos 1 mês, tive um sonho em que um instrutor mostrava a uma sala de repleta de alunos, algo como uma tabela periódica. Vasculhando elemento a elemento, deti-me no Carbono que, ali, era representado por um símbolo diferente do “C” que conhecemos na tabela moderna. Então, decidi que minha procura seria mais bem sucedida se procurasse por representações anteriores às modernas e cheguei até este ensaio sobre Alquimia. Se eu enviasse o símbolo, alguém poderia me dar uma luz para eu poder identificar do que se trata?

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