Os Templários

templarios - alquimia operativa

Depois que terminou o duradouro e grave conflito entre a Igreja e a Gnose, resolvendo-se a favor da Igreja, e depois que a Gnose foi banida, isso não teve mais importância durante a metade restante do século para a história ocidental. As lutas históricas voltaram-se para temas bem diferentes. A Igreja, que com o bispo de Roma tomou conta do legado civil e político do Império Romano, precisou se impor sobre os detentores da força política da Europa, contra os imperadores e reis. Também nesse caso, a vitória foi da igreja e, durante os séculos seguintes, não se conseguiu retomar o poder civil de suas mãos. Todos os imperadores se viram forçados a fazer acordos com a Igreja, um estado de coisas que durou até a época da Reforma. No entanto, provou-se que o espírito esotérico não pôde ser destruído nem morto, sobrevivendo por muito tempo em segundo plano, pois foi intensamente cultivado. A prova desse fato encontra-se nitidamente visível no aparecimento dos templários e dos cátaros.

Este renovado ressurgimento do esoterismo, historicamente comprova, se relaciona de perto com as Cruzadas. Através da aparição e do desenvolvimento do islã no Oriente Próximo, também as cidades sagradas da cristandade, como Jerusalém, caíram sob domínio islâmico. Esse fato foi tremendamente desagradável para o ocidente cristão, visto que a Terra Santa continuava a ter um grande significado para os peregrinos. Foi assim que surgiu a ideia das Cruzadas, cujo objetivo era a recuperação das cidades santas. Isso deu certo desde a primeira tentativa. No ano de 1099, elas foram reconquistadas por uma cruzada liderada por Godofredo de Bouillon, e depois que os chefes muçulmanos foram banidos, construiu-se em Jerusalém um reino cristão. O acesso às cidades sagradas ficou de novo livre para os peregrinos.

No entanto, podemos imaginar facilmente que, mesmo em circunstâncias favoráveis, não era nada fácil fazer uma peregrinação até Jerusalém. As vias de acesso eram precárias e muitas vezes perigosas. Portanto, foi preciso criar instituições que acompanhassem e protegessem os peregrinos em seu caminho ruma à Cidade Santa. Foi com essa missão que teve início a história da Ordem dos Cavaleiros do Templo.

Segundo fontes históricas, o “Exército Cavalheiresco Cristão do Templo de Salomão” foi criado pelo cavalheiro francês Hugo de Payen. Na companhia de oito seguidores, Hugo de Payen procurou estabelecer contato com o rei Balduíno I, de Jerusalém, irmão mais velho de Godofredo de Bouillon. Ele falou ao rei de sua pretensão: tomar todas as medidas necessárias para proteger os caminhos e as vias de acesso à Cidade Santa.

Durante nove anos, Hugo de Payen viveu com os oito companheiros em Jerusalém sob proteção do rei sem, no entanto, fazer nenhuma aparição em público. Durante esse tempo é que devem ter sido criadas as bases que, posteriormente, ocasionaram a enorme eficiência política e social da ordem.

Existem duas teses para explicar o fato: na antiguidade, em oposição à Igreja cristã, o Islã era muito mais aberto à vida espiritual esotérica e gnóstica. O florescimento da cultura islâmica até o início da Idade Média, em última análise, se deve a isso. O que era reprimido no Ocidente e banido à clandestinidade, podia desenvolver-se livremente no Oriente. Portanto, é mais do que provável que os primeiros templários, durante esses nove anos, tomaram conhecimentos do imenso cabedal de cultura esotérica e gnóstica como era ensinado no Oriente. Foi assim que a sabedoria e o espírito esotéricos se tornaram o alicerce dos templários, os quais na verdade, e ao menos para a época posterior, não podiam externar suas ideias, tendo de ocultá-las sob o manto do silêncio. Uma outra tese, mais especulativa, diz que Hugo de Payen e seus companheiros estabeleceram moradia num areal, onde antes ficava o Templo de Salomão, e que chegaram aos segredos do velho templo através de buscas arqueológicas sistemáticas; a partir daí, os templários foram considerados os guardiões e protetores dos segredos esotéricos. Seja como for, a atividade dos templários seguiu duas direções: uma exotérica e outra esotérica. A exotérica consistia na tarefa assumida de garantir a segurança dos caminhos que levavam à Cidade Santa, enquanto que a tarefa esotérica, presumivelmente, era a de guardar e proteger os segredos esotéricos, sem que se saiba detalhadamente como estes chegaram ao poder.

A liderança dos cristãos no Oriente Próximo não teve longa duração. O Islã conseguiu reconquistar lentamente as áreas perdidas e, no ano de 1291, caiu a última fortaleza cristã na Cidade Santa. Também os templários não puderam evitar o curso dos acontecimentos. Talvez nem mesmo quisessem fazê-lo. Eles exerceram suas atividades por toda Europa.

A estrutura exterior dos templários era a de uma ordem hierarquicamente organizada segundo um modelo cujo desenvolvimento podemos traçar passando por Pitágoras, pelos sacerdotes egípcios, sem excluir as influências orientais e as da Ásia Central. Toda a ordem submetia-se ao voto de sigilo absoluto, talvez por uma questão de segurança provocada pelo conflito que irrompera com as autoridades cristãs (como Ordem, a dos templários estava diretamente sujeita ao papa) e que posteriormente também contribuiu para a sua queda. Muitos fatos, talvez os mais importantes, nunca foram revelados pela história, dando sempre ensejo a novas especulações.

Também em seu campo de atividades europeias, principalmente na França, os templários eram tanto exotéricos como esotéricos. Como a proteção dos caminhos para a Cidade Santa havia sido mais ou menos destruída, os templários voltaram-se exotericamente para tarefas às quais hoje damos o nome de “serviço de assistência social”. Torna e nos chamar a atenção o fato de os templários tirarem, por assim dizer “do nada”, ideias e conceitos que somente em nossa época voltam a ser reconhecidos como missões. Por exemplo, eles fundaram e mantiveram, segundo o conceito atual, um serviço de atendimento médico muito eficiente que estava a serviço da comunidade. Eles deram à vida em sociedade feições totalmente novas, pois foram,  por assim dizer, os “descobridores” do sistema bancário moderno, que se tornou um elemento essencial na prosperidade e desenvolvimento social, numa época em que o poder estatal mal era capaz de proteger o comércio. Portanto, os templários devem ter sido os introdutores dos cheques bancários usados até os nossos dias.

Se observamos a atividades dos templários no contexto de suas ligações, convencemo-nos, sem grande dificuldade, de que possuíam um conhecimento muito avançado para a época, e que isso lhes possibilitou estar no lugar certo na hora certa, a fim de deflagrar as ações apropriadas ao momento. O sucesso exterior foi grande e os templários conquistaram uma força social cada vez maior, isso para não dizer que conquistaram o poder dentro do Estado francês.

O cultivo e o desenvolvimento do conhecimento esotérico parecem ter sido a tarefa de uma ordem interna dentro da ordem externa. A esse círculo só podiam pertencer os membros escolhidos, os quais, por meio de rituais secretos – que há tempos vêm desafiando a imaginação dos historiadores  – obtinham sua filiação. O pouco que sabemos provém dos registros das confissões dos acusados e, portanto, foi obtido sob tortura e, consequentemente, está alterado; além disso, perdeu-se a conexão com o restante. Os templários foram acusados de venerar uma entidade secreta que tinha o estranho nome de Bafomet. Sobre o significado desse nome também surgiram várias teses. A mais provável é a de que esse Bafomet era associado ao diabo e a Satã, visto que Bafomet tinha a função, dentro do ritual, de ligar os templários com a esfera energética da matéria primordial. Em outras palavras, com o que na mitologia grega era simbolizado por Pã e, na mística oriental, pela força dormente da Kundalini. Afinal, conhecer e fazer ascender a Kundalini passo a passo parece ser a missão do verdadeiro esoterista.

Uma queixa bastante grave era de que os templários cuspiam no crucifixo, além de pisoteá-lo em seus ritos de admissão à ordem. Também neste caso trata-se de especulação.

Acho mais provável que, através desse ritual, caso executado da maneira descrita, expressava-se um antigo conhecimento gnóstico de que não era necessário nenhum intermediário entre as esferas terreno-material (Bafomet) e a esfera divina. A este respeito, também é notória a postura dos gnósticos cátaros, que recusavam a adoração da cruz de Cristo como um instrumento e objeto de tortura.

Como acontecera com a Ordem Pitagórica, o desenvolvimento e estabelecimento de uma instituição dentro da própria instituição do Estado que se furtou ao seu controle e influência devido ao mandamento obrigatório do sigilo, não pôde a longo prazo dar-se bem.

Portanto, não demorou muito tempo para que os representantes do poder constituído, o rei e o papa, se sentissem ameaçados pelos templários, e tratassem de eliminá-los. A derrota das Ordens dos Templários foi planejada com todas as minúcias pelo rei e pelo papa. Depois de intensos preparativos, ao amanhecer do dia 13 de outubro de 1307, todos os templários da França deviam ser presos e suas sedes e propriedades confiscadas.

É provável que esse golpe tivesse dois objetivos: por um lado, as enormes riquezas das ordens deviam passar para a posse do rei com os menores danos possíveis e, por outro, visava-se obter à força o acesso aos segredos esotéricos das ordens. Nenhum dos objetivos foi alcançado. Pode-se ter como certo que os templários já estavam informados há tempos sobre o que se planejava fazer. Diante dessa ameaça, mostraram um comportamento exemplarmente heroico. Em vez de salvar a vida renegando pertencer à ordem, escolheram o caminho oposto. Diante da ameaça de morte, continuaram a viver como se não soubessem de nada e, em segredo, tornaram as providências visando salvar tudo o que não caísse nas mãos dos inimigos. Fizeram isso com tanta perfeição que até hoje nada foi encontrado.

Quando deram o golpe, o rei e sua soldadesca somente conseguiram aprisionar pessoas que, na maioria, não romperam seu voto de manter segredo nem sob as mais terríveis torturas. Aconteceu o que tinha de acontecer. Os templários foram processados; das acusações constavam heresia, difamação de Deus, além da acusação de idolatria e de conspurcação da cruz de Cristo (Bafomet); além disso, acusaram-nos de práticas sexuais contra a natureza. Essa acusação poderia indicar que, ao menos na ordem interior, houvessem sido usadas práticas tântrico-mágicas. Caso este tivesse sido o caso, comprovar-se-ia mais uma vez que, sempre que um ordem esotericamente orientada recorria a práticas de cunho mágico-sexual, as forças que as sustentavam inevitavelmente se retraíam e as ordens ou eram destruídas ou perdiam sua razão de ser. Isso repetiu-se várias vezes, como ainda veremos, no século XIX. Por toda a França ardiam as fogueiras de execução e, em março de 1314, Jacques de Molay, Grão-Mestre da Ordem, foi queimado vivo com seus ajudantes mais chegados.

Alguns do templários conseguiram fugir para a Inglaterra, onde a Ordem conseguiu viver secretamente por mais alguns séculos. Hoje existem, na Escócia, algumas facções da Franco-Maçonaria que derivam da Ordem dos Templários. Se de fato a Ordem tivesse continuado a viver clandestinamente na Inglaterra, isso por certo teria seu significado para o renascimento do esoterismo na Inglaterra, no século XIX. Alguns fenômenos desse renascimento são explicados dessa forma. Com a execução dos templários, a Ordem foi destruída e, com ela tudo o que havia conseguido até então para a cultura francesa da época. Restaram suposições e fantasias e também as celas das prisões onde os principais dirigentes da Ordem aguardaram a conclusão dos seus processos e sua execução. As paredes dessas celas estão repletas de rabiscos, de símbolos secretos e de desenhos, como se, no seu desespero, seus ocupantes tivessem tentando deixar às gerações posteriores algo compreensível da mensagem esotérica da “Ordem do Templo de Salomão”. Esse símbolo e desenhos até hoje, pelo que sabemos, não foram decifrados.

2 Comentários


  1. Artigo muito interessante e lúcido sobre os fatos que levaram a queda da Ordem Templária.

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