Tarô: O Louco e a Grande Obra

O Louco e a Grande Obra - Alquimia Operativa

Minha primeira leitura esotérica foi através de uma revista chamada “Destino”. Uma edição especial que trazia um jogo de tarô com os Arcanos Maiores (22 lâminas) para serem destacadas uma da outra. Desde então, venho praticando e meditando sobre o seu simbolismo, com o objetivo de autoconhecimento.

Recentemente, comecei a relacionar o simbolismo alquímico com o tarô. E, neste artigo, exponho uma análise do Louco com alguns aspectos da Grande Obra. Espero que sirva de inspiração para outras análises.

No Tarô, o Louco é sempre colocado depois da vigésima primeira lâmina ou entre a vigésima e a vigésima primeira. Ele não apresenta nenhum número e todos os autores concordam em colocá-lo fora do jogo (ele não conta na série).

Mas Guillaume Postel o coloca entre o Mundo e o Mago, atribuindo-lhe assim o simbolismo de elo astral entre o fim de um ciclo e o início de outro novo. Em outras palavras, é a marca do retorno à unidade.

A interpretação hermética nos faz considerar este arcano, que é de fato manifestamente fora de série, como o próprio veículo sobre o qual e através do qual se operam as fases sucessivas do Magistério Real em sua marcha para a perfeição (creio que as vinte e uma lâminas são um hieróglifo completo da marcha da Obra). E já que o trabalho a efetuar tem como base o próprio mercúrio, ele aparecerá em conformidade à razão de considerar e colocar o artesão antes das suas produções.

Louco é o símbolo da Matéria dos Sábios, do Mestre da Obra, do Leal Servidor; é o Artifex in opere, e Fulcanelli o denomina, com razão, O Louco da Grande Obra. O chocalho que ele tem na mão (certos jogos o apresentam efetivamente com um chocalho, do qual o bastão é uma deformação) apoia-se no simbolismo que o representa como a própria Ciência Hermética. É a Mãe do Rei (marotte, mérotte, mãezinha, diminutivo de Maria, a Mãe Universal), cuja natureza geratriz e feminina se harmoniza com a qualidade do mercúrio.

Amphitheatrum Sapientiae Aeternae - Alquimia Operativa

Mas o Adepto que quer ir mais longe na dissociação da matéria, além dos limites traçados pelas operações de destilação e de sublimação, sabe que lhe é necessário um agente que pertença tanto ao mundo manifesto quanto o mundo dos arquétipos. Ele encontra este agente no som. Em um fragmento hermético, Suidas faz alusão a este agente vibratório, que não deixa de ter relação com o AUM e os mantras. Lembremo-nos da importância do simbolismo musical nas figurações dos hieróglifos herméticos, notadamente o do asno levando uma lira, em Chartres, e os instrumentos de música sobre a mesa do laboratório, na prancha I de Kunrath. Do mesmo modo a obrigação das preces, lembrada por todos os adeptos, sabendo-se que sua eficácia é maior quando cantadas do que quando murmuradas ou pensadas. É por isso que em todos os jogos de cartas e em todos os jogos de Tarô antigos e modernos, O Louco é sempre representado com a boca aberta, cantando.

A presença do cão confirma, ademais, o que acaba de ser dito, se pensarmos que desde Arthepius o cão e a cadela são os hieróglifos do enxofre e do mercúrio. O cão é o fundamento da matéria universal, fiel ao artesão que o emprega segundo a Arte.

Este arcano figura o adepto perfeito, o verdadeiro sábio que alcançou a Suprema Compreensão, estranho ao mundo que se tornou para ele uma abstração, uma ilusão. A multidão estúpida pode urrar atrás dele ou sorrateiramente entreabrir os maxilares aos seus pés; ele, sereno, despreza o julgamento do vulgo, preferindo a sua humilde veste de trapos às belas vestes que o fariam respeitado. Ele conhece o segredo imemorial, o que faz dele um ser capaz de operar todas as transmutações, mas ele as guarda em sua trouxa. Se ele colocou na cabeça o boné do louco (vemos em antigos jogos que ele porta um boné de três chifres, o que deu origem à figuração do coringa nos baralhos) é para mostrar bem que a Sabedoria parece sempre aos profanos o irracional por excelência e o barulho dos seus guizos é o que anunciava os leprosos de outrora.

Ele se expõe ao opróbrio das massas, pois toda verdade é dura de ouvir. É ele que é figurado entre as pernas do esqueleto no Composto dos Pastores, e é ainda ele, alquimista tão notável, que aparece no alto das torres da Notre Dame de Paris. É o iluminado que com o seu mutismo preserva o seu segredo ao abrigo das vãs curiosidades. Mas é também o Sábio errante, aquele que tem algo a transmitir, e que o transmite ao acaso, sem querer conhecer aquele a quem se dirige. Não é dito que muitos são os chamados e poucos os escolhidos? E não estamos cientes de que o chamado está em toda parte, que a Mensagem está presente em todas as horas da vida para cada homem. E ela é a mesma para todos?

Este chamado, esta mensagem, nunca vem de quem esperamos e o mestre nunca tem outras formas nem outras vestes que as da mais extrema simplicidade. Nada em seu exterior o faz ser reconhecido, salvo quando abre a boca e todos riem às gargalhadas considerando-o como louco. De fato, os homens consideram aqueles cujo espírito preencheu como embriagados, e resulta que aqueles que estão como fora de si mesmos se regozijam dos opróbrios e das perseguições. Por seu despojamento voluntário ele mostra o caminho da simplicidade que sabe observar e a indiferença total pelos bens materiais e a Glória.

A algum tempo atrás identifiquei-me com a peregrinação do Louco e o seu chamado à Grande Obra. Desde então tenho, jubilosamente, me dedicado à Arte, com alegria e regularidade…

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11 Comentários


  1. Saudações Fraternais,
    Ir:: Kohen::
    Muito obrigado pelo esplêndido texto supracitado.
    É de grande valia, para os estudos Herméticos, a associação realizada entre as mais diversas Faculdades Esotéricas, no caso, o Tarô.

    Abraço Fraternal ::

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    1. Esta carta do taro e muito representativa para mim.Em minha caminhada através do aprendizado de filosofia,freqüentei um curso sobre o taro e na jogada final que definiria nossos princípios,saiu esta carta como síntese das cartas anteriormente lançadas .Isso foi surpreendente porque,me pareceu incoerente em relação as cartas anteriores,o que através deste artigo,irmão Cohen,pude compreender melhor as suas revelações.

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  2. Os mistérios acerca do fenomeno conhecido como Sincronicidade sempre me chamaram a atenção…talvez pelo desafio de conseguir estabelecer a ligação entre os elementos que o compoem e seu significado oculto.
    Adquiri recentemente o tarô de Etteilla ( O Livro de Thoth) e neste a carta O Louco tambem é chamada de O Alquimista…após o impacto inicial e meditando sobre essa ligação,percebe-se que realmente o louco em sim,possui muitos atributos que simpatizam com a figura do alquimista.
    Ótima explanação amado irmão,seu texto contribuiu enormemente.

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  3. Na verdade análise é de fundo intelectual! Se não puderes perceber o esoterismo dentro da simbologia e que isto deja percebi do com o coração intuitivamente vira confusão . Antes de entrar no canpo do esoterismo temos que fazer olhos para ver e ouvido para ouvir como recomenda nosso senhor Jesus Cristo. Se não despertar s consciência não se dá nenhum passo.

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  4. Muito interessante a ideia de que a aparência loucura do BOBO guarda em si profunda sabedoria! Ainda conheço pouco, sou um iniciante, mas isto parece ir ao encontro do simbolismo hermético!

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  5. Caríssimo Irmão Kohen, este artigo vem ampliar as portas de um convite que recebi recentemente, e ainda relutava, de um curso de iniciação ao Tarô com uma mestra: a professora Ilma Queiroga. Uma onda de ampliação da consciência. Grato.

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  6. humildemente não entendi muita coisa mas tenho certeza que cada palavra que li aqui vai germinar como conhecimento dentro de mim.

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  7. Todo aquele que se torna um verdadeiro buscador
    do conhecimento da verdade, acaba por se tornar
    um louco aos olhos daqueles que se contentam de
    ficar na escuridão da falta de sabedoria.
    Um abraço a todos.

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