Turba Philosophorum

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Pode-se ler num dos livros de Jabir que muitos dos antigos filósofos, incluindo Hermes, Pitágoras, Sócrates, Aristóteles e Demócrito, se reuniram em assembléia para discutir assuntos de alquimia. Esta é, possivelmente, a primeira referência a um célebre trabalho alquímico denominado Turba Philosophorum, ou Convenção de Filósofos, cuja origem intrigou os sábios durante muitos séculos. A Turba aparece primeiro em manuscritos latinos do século XIII, tendo sido a primeira edição impressa publicada em Basel em 1572. Apresenta o aspecto de um debate entre grande número de filósofos e foi tida em grande respeito por gerações e gerações de alquimistas.

A versão latina mostra sinais iniludíveis de ter sido traduzida do árabe e o conteúdo dos discursos revela também de forma clara que pelo menos parte daqueles elementos provém do grego. Os problemas apresentados pela Turba atraíram a atenção de muitos historiadores de alquimia e, em 1931, Ruska publicou uma monografia na qual provava definitivamente a origem islâmica da obra e tentava fixar a sua data por comparação com outros trabalhos árabes. Neste ponto, contudo, não foi absolutamente concreto, hesitando entre os séculos IX, X e XI. Sugeriu que a Turba era um ataque aos alquimistas gregos e pretendeu libertar a arte da praga de pseudónimos que a infesta, baseando-a, além disso, numa filosofia natural universalmente reconhecida. A origem árabe da Turba foi confirmada por completo em 1933, quando Stapleton pôde mostrar que um trabalho de um alquimista do século X, Ibn Umail, continha passagens extraídas daquela obra.

Assim ficou o problema até 1954, data em que uma luz inteiramente nova aclarou o problema, por parte de Martin Plessner, cujo trabalho pode considerar-se o mais brilhante contributo dado à história da alquimia nos últimos cinquenta anos. Plessner, em primeiro lugar, confirmou que a análise da Turba prova, fora de dúvida, a unidade da obra; portanto, um trabalho que contenha extratos ou referências suas deve ser considerado mais recente. Ibn Umail morreu por volta de 960 e daí a Turba não pode ter sido escrita depois de 900. Mas a Turba contém uma referência a um veneno mortal existente no corpo de uma mulher, e embora a expressão aqui oculte um significado alquímico, Plessner vê nela uma filiação no mito hindu da virgem-venenosa, que matava os homens com os seus beijos. Este mito foi introduzido na literatura islâmica através da tradução árabe do Livro dos Venenos, atribuído ao autor indiano Kautilya, tradução esta que se sabe ter sido feita na primeira metade do século IX. Por esta altura viveu em Akhmim (Panópolis), no Egito, um autor alquímico chamado Uthman ibn Suwaid, a quem foi atribuída a autoria de muitos livros, entre os quais O Livro das Controvérsias e Conferências de Filósofos. Plessner sugere que este título pode significar que o livro era, de fato, a Turba – sugestão esta que conduz novamente a uma data de composição por volta de 900. Akhmim era uma cidade cristã com uma notável tradição científica, onde muita gente sabia grego revelada pelo autor da Turba com a cosmologia grega e a forma como se criaram os fundamentos da alquimia, de modo a aparecer sob uma feição cosmológica.

Segundo o texto em latim, nove filósofos tomaram parte na discussão preliminar, com os nomes de Iximidrus, Exumdrus, Anaxágoras, Pandulfos, Arisleu, Lucas, Locustor, Pitágoras e Eximenus. Anaxágoras e Pitágoras parece indicarem que os sete restantes nomes são más traduções de nomes gregos, e, pela sua transcrição de novo em caracteres árabes, Plessner mostrou que a lista deveria ler-se: Anaximander, Anaxímenes, Pitágoras e Xenófanes – resolvendo assim um mistério de longa data.

Estes nove filósofos são todos pré-socráticos e Plessner demonstra que, nos seus discursos na Turba, eles expõem teorias de que tomaram conhecimento a partir de fontes clássicas.

Anaximander discute o Não-Limitado (Apreiron); Anaxímenes trata do ar; Anaxágoras apresenta as concepções de Pietas e Ratio como entidades primárias; Empédocles expõe a dupla função do ar, separando a água e a terra e como medianeiro entre a água e o fogo; Arquelau trata da terra, o mais compacto, e do fogo, o elemento mais sutil, como reguladores do Universo; Lêucipo fala dos elementos, sem dar pormenores, mas referindo-se, aparentemente, ao completo e ao vazio, já esboçados por Diógenes Laércio; Ecphantus comenta a diferença entre o mundo superior e inferior, descrevendo o primeiro como contendo seres compostos apenas por dois elementos raros; Pitágoras fala da simultaneidade de todos os quatro elementos que, segundo a sua opinião, são todos originais e a partir dos quais se compõem os seres existentes; não prevê, contudo, a presença simultânea dos quatro em cada ser, mas afirma que os anjos se compõem de um só elemento, o Sol, a Lua e as estrelas de dois, as plantas e os animais de três, e apenas o ser humano de todos os quatro elementos. Xenófanes, finalmente, defende a coexistência de todos os quatro elementos, em proporções variáveis, em todos os seres do universo.

Plessner diz que, mesmo quando estas opiniões parece contradizerem as doutrinas pré-socráticas, como são geralmente conhecidas, é sempre possível mostrar pontos na tradição grega a partir dos quais os dogmas acima referidos foram desenvolvidos. O autor não interpretou mal as suas fontes de consulta, mas, em vista da sua finalidade de relacionar os conhecimentos cosmológicos com as matérias alquímicas, ele próprio se confessa um pouco tendencioso. As matérias alquímicas assim interligadas com os ensinamentos cosmológicos são como seguem: Anaximander faz preces ao ar como protetor contra a combustão; Anaxímenes exalta a diluição e a condensação do ar, de acordo com os vários graus de calor; Anaxágoras trata da densidade da matéria, que aumenta de cima para baixo; Empédocles fala do significado químico do ovo; Arquelau refere a correlação entre o fogo e a terra; Lêucipo apresenta a metáfora do nascimento e morte, vulgarmente usada em alquimia; Ecphantus esboça a doutrina alquímica dos dois pares de elementos; Pitágoras comenta as relações entre números e o símbolo alquímico do homem; Xenófanes fala do en to pan (Um é Tudo), da putrefação e da necessidade de os quatro elementos estarem juntos.

É no discurso final de Xenófanes que se torna evidente a finalidade do autor. Este objetivo é estabelecer três teses: e de que o criador do mundo é Alá, o deus do Islão; de que o mundo é de natureza uniforme e de que todas as criaturas do mundo superior e inferior são compostas dos quatro elementos. A discussão preliminar termina neste ponto e os sessenta e três discursos seguintes da Turba são puramente alquímicos.

Outros pontos de interesse relevante descobertos por Plessner foram, primeiro, que os nove pré-Sócrates mencionados apareciam também num livro de Hipólito (cerca de 222 a.D.), um dos primeiros Pais da Igreja, chamado “Refutação de Todas as Heresias”, observando-se uma íntima ligação textual entre este livro e a Turba. Em segundo lugar, o fato de, num livro do alquimista grego Olympiodorus se compararem as doutrinas dos grandes alquimistas e as dos filósofos, com precisamente o mesmo fim de relacionar as teorias cosmológica e alquímica.

Em resumo, Plessner diz:

É o triplo resultado da discussão cosmológica – o Deus-Criador do Alcorão, o Mundo Unificado e a Doutrina dos Quatro Elementos – que a orienta, claramente, para o principal assunto da Turba, a alquimia. Ao mesmo tempo a alquimia é colocada no mundo do pensamento islâmico. Para a consecução deste fim o autor dispõe de um domínio soberbo da literatura doxográfica e, além disso, de uma invulgar veia literária. Consegue produzir um texto que junta alguns novos conhecimentos, absolutamente genuínos, à doxografia pré-socrática e representa a mais antiga prova até aí conhecida da penetração da tradição doxográfica na literatura islâmica.

Plessner avançou assim extraordinariamente na resolução do mais difícil enigma da alquimia, e o seu próximo trabalho sobre o assunto é esperado com grande curiosidade. Seria particularmente  interessante saber se a Turba foi originalmente escrita em árabe ou se foi obra de um autor grego, devido a uma tendenciosa confusão muçulmana existente num período mais tardio. Esta última hipótese parece a mais viável.

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