A Alquimia e a Origem da Natureza: Do Vapor à Água

Este artigo é dedicado àqueles que se debruçam sobre a prática laboratorial da alquimia; aos que conseguem enxergar a sacralidade da matéria, ao invés de limitarem-se em elucubrações místicas e analíticas.

Seguindo as instruções de Johann E. V. Naxágoras, a água deve ser a primeira matéria a ser trabalhada pelo alquimista. A primeira a ser estudada e compreendida. Pois é coletada, preparada e utilizada em quase todas as operações.

Conforme se pode ler no Evangelho de João, Deus tirou a Natureza do nada pela virtude de Seu Verbo, que Ele engendrara desde a eternidade. Ele quis, e o Verbo engendrou um vapor, uma névoa ou uma fumaça imensa, e nela Ele imprimiu Sua virtude, ou seja, um espírito cheio de força e poder. Esse vapor condensou-se, formando uma água que os Filósofos denominaram universalcaótica, ou simplesmente caos. Dessa água o universo foi formado: ela foi, ainda é e será sempre a primeira matéria de todas as coisas naturais e existentes.

A geração do mundo pelo Verbo é, sem dúvida, tão incompreensível quanto a geração desse Verbo divino. Basta-nos saber, para a compreensão da Natureza, que tudo o que existe não passava, no começo, de vapor animado por Seu espírito, e que esse vapor se tornou palpável em forma de água.

Não será difícil conceber que o mundo foi formado de um vapor que se condensou em água, se considerarmos não apenas que a água se resolve em vapores, e que estes se reduzem a água, mas também que todos os corpos se transformam em vapores e em água em sua dissolução.

É fácil observar que a água se resolve em vapores. Vemos principalmente na época de verão, quando o sol aquece as águas dos lagos, dos rios, das nascentes etc, que dela se elevam vapores que se espalham pelo ar. Assim também, depois que a chuva caiu e em seguida o sol emite seus raios, vemos que os tetos molhados por essa chuva fumegam e soltam vapores que se dissipam no ar.

Vemos muito bem no fogão, quando a água está fervendo em uma panela, que a água solta vapores que se exalam em fumaça, e, se quiser, ele pode, com a ebulição, reduzir e transformar toda a sua água em vapores.

Vemos também que os vapores se transformam em água: depois  que a névoa se espessa e forma nuvens, essas nuvens se resolvem em chuva ou em neve, e voltam à sua origem.

Quem manuseia o fogão não ignora esse efeito e o sente, para seu grande incômodo. Quando é forçado a trabalhar no auge do verão, todo o seu corpo transpira, e os vapores que dele saem se resolvem em água, que escorre por suas costas, e a isso damos o nome de suor.

Todos os que operam destiladores também veem que os líquidos se elevam em forma de vapores no capitel de seu alambique, que ali se condensam e escorrem pelo bico, gota a gota, ou em pequenos filetes.

Enfim não vemos outra coisa entre o céu e a terra além de vapores, fumaças e água que, impelidos pelo calor central da terra, se sublimaram e elevaram de nossa esfera composta de terra e água para a região do ar. E, se pudéssemos perceber as sutis emanações ou os imperceptíveis vapores dos céus, veríamos seus influxos, que descem do alto, misturam-se e unem-se com os vapores terrestres que se sublimam para o alto. Mas, embora não possamos vê-los, em razão da fraqueza de nossa visão, devemos concebê-los em nosso espírito e depois torná-los palpáveis pela prática de laboratório, sentindo que tudo o que ocorre no microcosmo ocorre também no macrocosmo, e que o que está em cima é como o que está embaixo.

Podemos, portanto, ter como certo que a primeira matéria deste grande mundo é a água caótica, ou um vapor reduzido a água. Duas coisas devem ser consideradas nessa água universal: uma visível, que é a água, e outra, o espírito invisível que lhe é inerente; de tal modo que se pode dizer que essa água é dupla, ou seja, duas coisas em uma.

A água sem espírito não teria força, e o espírito sem a água não teria ação, porque é preciso, necessariamente, que haja um corpo para operar coisas corporais. Se Deus quis que fosse a água o meio pelo qual esse espírito pudesse operar tudo em todas as coisas, é porque ela tem a propriedade de misturar-se facilmente com todas as coisas, e, por seu meio, o espírito pode penetrar, amolecer, formar e destruir tudo.

A água é, portanto, o sujeito ou o paciente, o corpo, a habitação e o instrumento. E o espírito é o agente que opera tudo nela e por ela, o ponto seminal e central de todas as coisas naturais.

Que todo aquele que deseje penetrar nos segredos da Natureza considere bem esse ponto. Todas as coisas estão encerradas em todas as coisas, ou seja, esse espírito com poder gerador está repartido por todos os sujeitos do mundo inteiro e que, assim como todas as coisas ganham dele existência, também retornam para ele, e a ele se juntam depois de sua última dissolução. Por uma vicissitude contínua, a circunferência volta ao centro, e o centro, à circunferência.

Se compreender bem isso, nada mais poderá detê-lo na análise da Natureza, pois de um volátil ele fará fixo, do doce fará um azedo, de um mau odor, um odor agradável, de um veneno, uma teriaga (antigo antídoto), e de uma teriaga, um veneno. Saberá assim qual é o objetivo de todas as nossas pesquisas, a saber, que todas essas coisas têm origem na mesma raiz, e que a ela podem ser reduzidas. Com efeito, elas não são destruídas no que diz respeito à sua matéria, mas apenas aos seus acidentes, segundo seu grau de volatilidade, de fixidez ou de digestão.

É por isso que todos os Filósofos (“filósofo” é outro termo dado para “alquimista”) exclamam:

“Nossa matéria está em todas as coisas, em tudo o que nos cerca, em todo lugar e a cada momento nós a tocamos com as mãos, pisamos com os pés: ela voa diante de nossos olhos, colide conosco, por assim dizer, a cada instante.”

Advertem-nos, porém, a não buscar esse espírito em todos os sujeitos indistintamente, mas apenas naqueles em que ele reside em maior quantidade, onde ele é de melhor qualidade, e onde pode ser encontrado mais facilmente; pois, embora se encontre em todos e quaisquer sujeitos, não deixa de estar em um em maior quantidade, força e pureza do que em outro, mas está ‘todo” em todas as coisas.

Existem muitos outros aspectos a serem abordados, os quais pretendemos compartilhar em breve.

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15 Comentários


  1. Gratidão irmão Kohen…seus ensinamentos sovre a água irrigaram o profundo da alma deste aprendiz…

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    1. Olá Sônia! Naxágoras é o pseudônimo de um alquimista do século XVII, que compilou diversas obras de grandes mestres alquimistas.

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  2. Muito bom meu querido Ir.´. , estou iniciando meus estudos alquímicos, com bastante dificuldade, mas chego lá. Muito Obrigado pelos ensinamentos, desde já deixo um convite de visita a minha oficina. TFA

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  3. Chegará o dia em que reconheceremos outros irmãos, habitantes do planeta Terra,assim como já reconhecemos os animais e mais recentemente os vegetais; então o homem poderá agradecer os favores à água, sem parecer louco.

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  4. Prezado Irmão:
    Tenho procurado através de livros adquiridos em livraria e sebos, aprender um pouco desta ciência. Todavia parece que os conceitos são escondidos. Li o seu artigo sôbre a agua e sublimação, etc e entendi perfeitamente sua subjetividade conceitual. Acredito que sòmente com uma orientação poderemos entender tais conceitos. Obrigado
    Luiz A Romanus

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  5. Amigo Mestre, ainda não desfruto de estudos alquimicos, mas sempre estou atento às minhas percepções, em especial com a natureza. Tudo o que se move em nosso planeta é cíclico. A água em seus 4 Estados fisico-quimicos para mim mostra que não sou imutável. Eu quero e posso, com muitas dúvidas iniciar o encontro com i verdadeiro caminho e suprir meus anseios sobre questões elementares da existência do Todo.

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  6. Olá, boa tarde a todos. Maravilhoso artigo e relevante é bom ter conhecimento, agradeço a oportunidade de ótima leitura.

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  7. Bom dia, meus caros irmão. São pequenos escritos como esse que nos faz pensar e daí até empreender estudos mais dirigidos. Sinto-me feliz quando brota coisas assim em minha vida. Grato

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  8. Venho guardando de muito tempo em minha cx. de entrada todas as suas postagens . E, na hora de paz e folga ,venho ler com carinho e atenção . Obrigada pelo envio de tanto conhecimento maravilhoso mestre . Fraternal abraço.

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    1. Olá Salete! Agradecemos o carinho e atenção para com o nosso trabalho.

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  9. Uno no Todo e Todo no Uno. Cada leitura sobre a Sagrada Arte é uma descoberta fascinante sobre a criatura e o Criador. Grata pelo texto caro Irmão!

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  10. Este artigo é maravilhoso uma definição completa a meu vêr do significado profundo da alquimia. ..abraços fraternos ::

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