Matéria Prima e Alquimia

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Alguns Filósofos e Mestres em Alquimia supuseram que houvesse uma Matéria existindo antes dos elementos (na Filosófia Hermética, os elementos significam certas condições em que os corpos são encontrados: são equivalentes a Sólido, Líquido, Gasoso, etc) como eles não a entendiam, falaram dela de maneira muito obscura. Aristóteles, que parece ter acreditado que o Mundo era eterno, fala de uma Matéria-Prima universal, mas sem se atrever a se enredar nas obscuras volutas das ideias que ele fazia sobre ela, exprimiu-se de maneira muito ambígua. Viu-a como o princípio de todas as coisas sensíveis, e pareceu implicar que os elementos eram formados por uma espécie de antipatia, ou repugnância, que era encontrada entre as partes desta Matéria. Ele teria argumentado melhor se visse apenas a simpatia e a perfeita harmonia; pois ninguém vê oposição nos elementos em si, muito embora usualmente se pense que o fogo seja oposto à água. Não estaríamos em erro se se notasse que esta pretensa oposição viesse apenas do objetivo de suas qualidades e da diferença de sutileza de suas partes, pois não há água sem fogo.

Tales, Heráclito Hesíodo viram a água como a Matéria-Prima das coisas. Moisés parece favorecer esta ideia (Gênese, cap. 1), dando  os nomes de Abismo e Água a essa Matéria-Prima; não que ele entendesse a água como o elemento que bebemos, mas como um tipo de fumaça, um vapor úmido, espesso e escuro, que se condensa, pouco mais ou pouco menos, de acordo com a maior ou menor densidade das coisas que aprouve ao Criador formar a partir dela. Esta bruma, este imenso vapor, condensou-se ou rarefez-se numa Água caótica universal, que assim se tornou o princípio de tudo para o presente e para o futuro.

No seu começo, esta Água era volátil, como uma névoa; a condensação fez dela uma matéria mais ou menos fixa. Mas qualquer que tenha sido esta Matéria, o primeiro princípio das coisas foi criado em trevas demasiadamente espessas para que a mente humana a visse claramente. Só o Autor da Natureza a conhece, e em vão teólogos e filósofos desejam determinar o que era; no entanto, é muito provável que este abismo trevoso, este caos, fosse uma matéria aquosa, ou úmida, pois seria mais facilmente rarefeita e condensada, e consequentemente mais adequada, por causa de todas estas qualidades, para a construção do céu e da terra.

A Sagrada Escritura chama esta massa não formada por vezes de Terra Vazia e às vezes Água, muito embora de fato não fosse nem  uma  nem  outra,  mas apenas em potencial.

Então seria permissível conjecturar que poderia ser quase como os fumos, ou um vapor espesso, estúpido e inerte, entorpecido por uma espécie de frio, e sem ação, até que o mesmo Verbo que criou este vapor infundiu nele um espírito vivificante, que se tornou visível e palpável pelos efeitos que produzia.

A separação das águas acima do firmamento das águas debaixo dele, de que se faz menção no Gênese, parece ter sido feita por um tipo de sublimação das partes mais sutis e mais tênues, daquelas que o eram menos, quase como numa destilação, onde os espíritos sobem e se separam das partes mais pesadas, mais terrestres, e ocupam a parte superior do vaso, ao passo que as mais grosseiras permanecem no fundo.

Esta operação poderia ter sido feita apenas com o auxilio daquele espírito luminoso que foi infundido na massa. Pois a Luz é um espírito ígneo, que, ao agir sobre este vapor, e nele, torna algumas partes mais pesadas por condensação, e opacas por sua adesão mais de perto; este espírito as levou para a região inferior, onde mantiveram as sombras em que o primeiro estiveram enterradas. As partes mais tênues, e que se tornaram mais e mais homogêneas por uniformidade de sua tenuidade e pureza, foram elevadas e pressionadas rumo à religião superior, onde, sendo menos condensadas, permitiram uma passagem mais livre para a Luz, que se manifestou em todo o seu esplendor.

Aquilo que prova o Abismo negro, o Caos, ou a Matéria-prima do mundo fosse massa aquosa e única, é que, além das razões que apresentamos, temos um caso palpável debaixo dos nossos olhos. A propriedade da água é fluir, escorrer, enquanto o calor animar e mantiver seu estado líquido. A continuidade dos corpos, a adesão de suas partes, deve-se ao humor aquoso. É o cimento que une e junta as partes elementares dos corpos. Enquanto não se separa deles inteiramente, preservam a solidez de sua massa. Mas se o fogo aquecer estes corpos além do grau necessário para sua preservação no seu estado de ser atual, ele afasta, rarefaz este humor, faz com que evapore, e o corpo fica reduzido a pó, porque o liame que unia suas partes não mais existe.

O calor é o instrumento que o fogo emprega em suas operações; até produz por este meio dois efeitos, opostos no aspecto, mas conforme às leis da Natureza, e  representando para nós aquilo que ocorreu no desfazimento do caos. Ao separar a parte mais tênue, a mais úmida da mais terrestre, o calor rarefaz a primeira e condensa a segunda. Assim, pela separação do heterogêneo, é feita a união do homogêneo.

De fato, vemos no mundo apenas água, mais ou menos condensada. Entre os céus e a terra, tudo é fumaça, névoa, vapores, pressionados a partir do centro, o interior da terra, e elevado acima de sua circunferência na parte que chamamos ar. A fraqueza dos órgãos dos nossos sentidos não nos permite ver os vapores sutis ou emanações dos corpos celestes, que chamamos influências, e que se misturam com os vapores que se sublimam dos corpos sublunares. Os olhos da mente devem ajudar a fraqueza dos olhos do corpo.

Em todos os momentos os corpos exalam um vapor sutil, que é manifestado mais claramente no verão. O ar quente sublima as águas em vapores, e os atrai para si. Quando, depois de uma chuva, os raios do sol se dirigem sobre a terra: mas quando sobem para a região média, vemo-los flutuar, e ali, sob a forma de nuvens. Então se resolvem em chuva, neve, granizo, etc., e caem para voltar à sua origem.

O operário sente um grande incômodo, quando trabalha vigorosamente. Mesmo o homem ocioso sente um grande calor. O corpo sempre transpira, e a transpiração que muitas vezes escorre da testa manifesta isto suficientemente.

Aqueles que aceitaram as ideias fantásticas dos rabinos acreditam que existiu, antes desta Matéria-prima, certo  princípio, mais antigo que ele, a que deram impropriamente o nome de Hylê (Palavra derivada do grego hilê, e que significa floresta, ou caos, confusão. É também o nome dado, em Alquimia, à matéria da Pedra Filosofal). Era menos que um corpo, uma imensa sombra; menos uma coisa, que uma mui obscura imagem de coisa, que mais deveríamos chamar um sombrio fantasma, por fim, uma coisa que existe apenas em potencial, e que a mente humana só pode imaginar em sonho. Mas mesmo a imaginação poderia representar isto para nós, tal como um cego representa para si a luz do sol. Estes seguidores dos rabinos consideraram adequado dizer que Deus retirou do Primeiro Princípio um abismo sombrio, sem forma, como a matéria de onde seriam derivados os elementos e o mundo. Mas por fim, tudo anuncia para nós que a Água foi o princípio das coisas.

O Espírito de Deus que se movia sobre as águas (Gênesis, cap. I) foi o instrumento usado pelo Supremo Arquiteto, reduzido da existência latente para a atual, dos germes das coisas, até então confundidas com o caos, e por uma alternância constante de coagulações e dissoluções, mantém todos os indivíduos espalhados pela massa; anima cada parte dele, e por uma operação contínua e secreta dá movimento a cada indivíduo de acordo com o gênero e a espécie que designou. Falando propriamente, é a alma do mundo; e quem a ignorar ou negar ignora as leis do Universo.

1 comentário


  1. Bom dia. (10:35, 05/08/2016)
    Peixe, Pão e Vinho. Uma Alquimia antiga. A alegoria existe mas é insuficiente. O alimento é este mesmo. Como transmutar o externo antes do interno ?
    O processo é lento.

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