Explicação da Tábua de Esmeralda por Joannes Grasseus (Hortulanus)

Meditar sobre o significado da Tábua de Esmeralda constitui um passo obrigatório para todo estudante diligente da Alquimia e do Hermetismo.

Em qualquer arte ou ciência, devemos iniciar pelos fundamentos para, em seguida, progredir para tópicos avançados.

Um dos grandes obstáculos do estudo alquímico reside no fato de que até os fundamentos são demasiadamente complexos. Fato que requer disciplina e vontade firme.

Portanto, caso você deseje levar a sério o estudo alquímico (operativo e/ou espiritual), deverá consagrar, pelo menos, uma hora diária para estudo e seguir um programa previamente estabelecido.

Tal estudo torna-se significativamente mais seguro quando executado sob a orientação de alguém mais experiente ou através de uma Escola.

Neste outro artigo, você poderá baixar um poster e ouvir a leitura da Tábua de Esmeralda. Existem diversas dissertações sobre a tábua de esmeralda. No entanto, sugiro que você procure conceber um entendimento próprio. De qualquer forma, interpretações de outros autores não deixa de ser um ponto de referência.

O presente texto, do século XV, é de autoria de Hortulanus (pseudônimo de Joannes Grasseus). Um autor pouco conhecido aqui no Brasil.

PREFÁCIO

Louvor, honra e glória vos sejam concedias para sempre, Oh Senhor Deus Todo Poderoso! Juntamente com vossos muitos queridos, filhos, nosso salvador Jesus Cristo, Deus verdadeiro e único, homem perfeito, e o Espírito Santo consolador, santíssima trindade, que sois o Deus único; eu vos rendo graças de que tendo tido conhecimento das coisas passageiras desse mundo nosso inimigo, vós me tenhais excluído por vossa grande misericórdia, a fim de que eu não fosse pervertido por suas volúpias enganosas.

E porque eu via muitas coisas daqueles que trabalham nesta arte, que não seguem o caminho reto; eu vos suplico, Oh meu senhor, e meu Deus! Que vos seja agradável que eu possa me afastar desse erro pela ciência que me haveis dado, meus mui caros e bem amados; a fim de que tendo conhecido a verdade, eles possam louvar vosso santo Nome que é bendito eternamente.

Portanto, eu, Hortulain, quer dizer, jardineiro, assim chamado por causa dos jardins marítimos, indigno de ser chamado discípulo de filósofo, estando comovido pela amizade que dedico aos meus três caros, quis fazer por escrito a declaração e explicação correta das palavras de Hermes, pai dos filósofos, embora elas sejam obscuras; e declarar sinceramente toda a prática da verdadeira obra. E sem dúvida, de nada serve aos filósofos quererem ocultar a ciência em seus escritos, pois que a doutrina do Espírito Santo opera.

CAPÍTULO I


A arte da alquimia é verdadeira e certa

O filósofo diz: É verdade, e que se saiba que a arte da alquimia nos foi dada. Sem mentira, ele diz isso para convencer aqueles que dizem que a ciência é mentirosa, que dizer, falsa. Certa, quer dizer experiente, pois tudo aquilo que é experiente é bastante certo. E muito verdadeira, pois o mui verdadeiro sol foi procriado pela arte. Ele diz muito verdadeira, no superlativo, pois que o sol engendrado por essa arte, sobrepuja qualquer sol natural em todas as propriedades, tanto medicinais quanto outras.

CAPÍTULO II


A pedra deve ser dividida em duas partes

Em seguida chega a vez da operação da pedra dizendo Que o que está em baixo é como o que está no alto. Ele diz isso porque a pedra está dividida em duas partes principais, pelo magistério; saber, na parte superior que sobe ao alto, e na parte inferior que fica em baixo, fixa e clara. E, no entanto, essas duas partes concordam em virtude. Eis porque ele diz, E o que está no alto é como o que está em baixo. Certamente esta divisão é necessária para fazer os milagres de uma coisa, quer dizer da pedra; pois a parte inferior é a terra, que é a que nutre e o fermento; e a parte superior é a alma, a qual vivifica a pedra toda, e a ressuscita. Eis porque a separação e a conjunção feitas, muitos milagres vêm a ser feitos na obra secreta da natureza.

CAPÍTULO III


A pedra contém em si os quatro elementos

E como todas as coisas foram e provieram do Um pela meditação do Um. Ele dá aqui um exemplo, dizendo: como todas as coisas foram e saíram do Um, a saber, de um globo confuso, ou de uma massa confusa, pela meditação, quer dizer, pelo pensamento e criação do Um, quer dizer, de Deus Todo Poderoso. Assim nasceram todas as coisas. Quer dizer, saíram, desta coisa única, quer dizer, de uma massa confusa, por adaptação; quer dizer, apenas pelo comando e milagre de Deus. Assim nossa pedra nasceu e saiu de uma massa confusa, contendo em si todos os elementos, a qual foi criada por Deus, e por seu milagre, nossa pedra daí saiu e nasceu.

CAPÍTULO IV


A pedra tem pai e mãe, que são o sol e a lua

Como observamos que um animal naturalmente engendra inúmeros outros animais semelhantes a ele: assim o sol engendra artificialmente o sol, pela virtude da multiplicação da pedra. Eis porque daí se segue que, O sol é dela o pai, quer dizer, do ouro dos filósofos. E para que em todas as gerações naturais, deva haver um local próprio para a recepção das sementes, de conformidade e alguma semelhança com a parte; assim, é precioso que nessa geração artificial da pedra, o sol tenha uma matéria que seja como uma matriz própria para receber seu esperma e sua tintura. E isso, é a prata dos filósofos. Eis porque, daí se segue, e a lua é a sua mãe.

CAPÍTULO V


A conjunção das partes é a concepção e a geração da pedra

Quando esses dois tiverem recebido um ao outro na conjunção da pedra, a pedra se engendra no ventre do vento, e é isso que ele diz em seguida, O vento a carregou em seu ventre. Sabe-se de sobeja que o vento é ar, e o ar é vida, vida é a alma, da qual já disse anteriormente, que ela vivifica toda pedra. Assim é preciso que o vento porte a pedra toda, e a complete, e que ele engendre o magistério.

Eis porque daí se segue que ele deve receber o alimento de quem nutre, a saber, a terra. O filósofo diz também: A terra é seu alimento. Pois da mesma forma que a criança sem alimento que recebe de sua nutriz não chega a crescer, também nossa pedra jamais chegaria a vingar de fato sem a fermentação da terra; e o fermento mãe, a coisa, quer dizer, as crianças semelhantes aos pais; as quais, se não têm uma longa decocção, serão feitas semelhantes à mãe, e irão reter o passo do pai.

CAPÍTULO VI


A pedra é perfeita se a alma estiver fixada no corpo

Depois se segue que, o pai de todo telesma do mundo está aqui, quer dizer, na obra da pedra existe uma meta final. E notai que o filósofo chama a operação de pai de todo o telesma, quer dizer, de todo o segredo ou tesouro , de todo mundo; a saber de toda a pedra que se puder encontrar nesse mundo. Está aqui. Como se ele dissesse, Aqui está eu te mostro. Depois o filósofo diz, Queres que eu te ensine quando a força da pedra está pronta e perfeita? É quando ela tiver se convertido e transformada em sua terra.

E para isso, diz ele, sua força e poder estão inteiras, quer dizer, perfeitas e completas, se ela for convertida e transformada em terra. Quer dizer, se a alma da pedra (da qual se fez anteriormente menção, que a alma é chamada vento, e ar, na qual está toda a vida e a força da pedra) é convertida em terra, a saber da pedra, e que ela se fixe de tal sorte que toda a substância da pedra esteja tão bem unida com sua nutriz ( que é a terra) que toda a pedra se encontre e esteja convertida em fermento.

E como quando se faz pão, um pouco de levedo nutre e fermenta uma grande quantidade de massa: e desse jeito altera toda a substância da massa em fermento: assim também quer o filósofo que nossa pedra esteja de tal forma fermentada que ela sirva de fermento à sua própria multiplicação.

CAPÍTULO VII


 A mundificação da pedra

Em seguida ele ensina como a pedra deve se multiplicar, mas antes ele faz a mundificação pela separação das partes, dizendo: Tu separarás a terra do fogo, o sutil espesso, suavemente com grande desvelo. Suavemente quer dizer pouco a pouco, não por meio da violência, mas com espírito e desvelo, a saber no excretor ou fumeiro filosofal. Tu separarás, quer dizer, dissolverás; pois a dissolução é a separação das partes. A terra do fogo, o sutil do espesso, quer dizer a lia e a imundície do fogo, e do ar, e de toda a substância da pedra, de modo que ela fique inteiramente isenta de sujeira.

CAPÍTULO VIII


A parte não fixa da pedra deve separar a parte fixa e elevá-la

Estando assim a pedra preparada, ela pode logo se multiplicar. Ela estabelece então a multiplicação e ele fala da liquefação ou fusão da mesma dizendo: ela sobe da terra aos céus, e ato contínuo desce à terra. É preciso deixar bem claro aqui, que embora nossa pedra em sua primeira operação se divida em quarto partes, que são os quatro elementos: embora (assim como foi dito anteriormente) existem duas partes principais nela; uma que sobe, que é chamada de não fixa, ou a volátil; e a outra que permanece fixa embaixo, que é chamada a terra ou fermento, como já foi dito.

Mas é preciso ter uma grande quantidade da parte não fixa, e dá-la à pedra, quando ela estiver muito pura e sem sujeira, e é preciso dar tantas vezes pelo magistério, que toda a pedra, pela virtude do espírito, seja levada ao alto, sublimando-a e fazendo-a sutil. E é isso o que diz o filósofo: sobe da terra ao céu.

CAPÍTULO IX


A pedra volátil deve imediatamente ser fixada

Depois disso tudo, encerrar esta mesma pedra (assim exaltada e elevada, ou sublimada) com o óleo, que foi retirado dela na primeira operação, a qual é chamada de água da pedra. É necessário virá-la tantas vezes, sublimando-a, até que pela virtude da fermentação da terra (com a pedra elevada ou sublimada) toda a pedra pela reiteração desça do céu à terra, permanecendo fixa e fluente. E é isso o que diz o filósofo, E imediatamente desce à terra.

E assim, ela recebe a força das coisas superiores, ao sublimar; e das inferiores, ao descer; quer dizer, que o que é corpóreo, far-se-á espiritual na sublimação, e o espiritual far-se-á corporal na descida, ou quando a matéria desce.

CAPÍTULO X


Utilidade da arte e eficácia da pedra

Tu terás por esse meio a glória de todo mundo. Quer dizer, por meio desta pedra assim composta, tu possuirás a glória de todo mundo. E por meio disso toda obscuridade se afastará de ti; quer dizer, toda pobreza e doença. Esta é a força forte de toda a força. Pois não haverá comparação alguma das outras forças deste mundo com a força desta pedra: Pois ela vencerá toda coisa sutil, e irá penetrar toda coisa sólida.

Vencerá, quer dizer, que vencendo e sobrepujando, ela transformará e converterá o mercúrio vivo congelando-o, ele que é sutil e macio, e penetrará os outros metais que são corpos duros, sólidos e firmes.

CAPÍTULO XI


O magistério imita a criação do universo

O filósofo dá em seguida um exemplo da composição de sua pedra, dizendo, assim o mundo foi criado; quer dizer que nossa pedra é feita da mesma maneira que o mundo foi criado; quer dizer que nossa pedra é feita da mesma maneira que o mundo foi criado. Pois as primeiras coisas de todo o mundo, e tudo o que ocorreu no mundo, foi principalmente uma massa confusa, e um caos em ordem, como dito acima.

E depois, pelo artifício do soberano Criador, esta massa confusa, tendo sido admiravelmente separada e retificada, foi dividida em quatro elementos: e por causa dessa separação, foram feitas coisas diversas e diferentes. Assim também se podem fazer diversas coisas pela produção e disposição da nossa obra, e isso pela separação de diversos elementos em diversos corpos. Daí surgirão e irão sair admiráveis adaptações.

Quer dizer, se tu separas os elementos, daí surgirão admiráveis composições próprias à nossa obra, na composição da nossa pedra, pela conjunção dos elementos retificados. Dos quais, quer dizer, daquelas coisas admiráveis próprias para isto; o meio, ou quer dizer, a saber como proceder, está aqui.

CAPÍTULO XII


Declaração enigmática da matéria da pedra

Eis porque eu fui chamado de Hermes Trismegisto, quer dizer, Mercúrio três vezes mui grande. Depois que o filósofo ensinou a composição da pedra, ele mostra aqui veladamente do que é feita a nossa pedra, denominando a si mesma: primeiramente a fim de que os discípulos que se achegarem à esta ciência, se recordem sempre do seu nome.

Não obstante ele se aproxima daquilo de que se faz a pedra, dizendo em seguida: Tendo as três partes da filosofia de todo mundo, por este todo que está no mundo, tendo matéria e forma, sendo composto dos quatro elementos. Ou embora no mundo haja uma infinidade de coisas que o compõe e de que são as partes, o filósofo as divide e as reduz todas a três partes; a saber na parte mineral, vegetal e animal, de todas as quais conjunta ou separadamente proveio a verdadeira ciência, na operação do sol, ou composição da pedra.

E é por isso que ele diz, tendo as três partes da filosofia de todo mundo, cujas três são contidas somente na pedra; sabidamente o mercúrio dos filósofos.

CAPÍTULO XIII


Por que a pedra é chamada perfeita?

Esta pedra é chamada perfeita, porque ela contém em si a natureza das coisas minerais, vegetais e animais. É porque ela é chamada tripla, ou então trina una; quer dizer tripla e única, tendo quatro naturezas, quer dizer os quatro elementos e as três cores, o negro, o branco e o vermelho.

Ela é também chamada o grão de fermento, o qual se não morrer permanece sozinho; e se morrer (como foi dito anteriormente, quando ela se torna conjunta na conjunção) ela dá muitos frutos, a saber, quando as operações de que falamos, chegam a um término. Oh amigo leitor! Se tu sabes a operação da pedra, eu te disse a verdade; e se tu não a sabes, eu não te disse nada. O que eu disse da operação do sol está cumprida e terminada. Quer dizer, o que foi dito da operação da pedra de três cores e das quatro naturezas, que são uma coisa única, a saber, o único mercúrio filosófico, acabado e terminado.

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13 Comentários


  1. Muito interessante esta explanação, bom aprendizado! Alguém saberia me dizer se a simbologia utilizada nos números árabes tem alguma relação com o significado da Tábua de Esmeralda? Fraterno abraço!

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  2. Ao ler o texto fiquei imaginando todo o trabalho, a atenção e o cuidado que se deve ter. Não vejo a hora de estar apta a isto.

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    1. Olá, Mari! O segredo é começar e permanecer em constante aprendizado.

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  3. Todo esse processo me lembra a maneira como se dá a formação de um planeta.

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  4. Grato!
    Comecei esta leitura descompromissado… Mlas fui tomado por um sentimento profundo de gratidão aos antigos nestes da Arte!
    Abraço

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