Os Conselhos de Basílio Valentim para os Praticantes da Alquimia

Os Conselhos de Basílio Valentim para os Praticantes da Alquimia

Nesta minha contemplação, encontrei cinco coisas muito nobres, às quais todo buscador da verdade e amante da arte (da alquimia) deve indagar. Como primeira, a invocação do nome divino; Como segunda, a contemplação da essência; Como terceira, uma verdadeira e incorrupta preparação; Como quarta, o bom uso; Como quinta, a utilidade. Tais cinco coisas todo químico e verdadeiro alquimista deve saber considerar. (do Carro triunfal do antimônio)

Para o estudo e a prática da alquimia, precisamos ser modestos, pacientes, sinceros e decididos. As mais altas práticas desta arte podem ser aprendidas somente através de um mestre. Quem ler os textos clássicos sem uma preparação adequada compreenderá pouco ou nada.

A alquimia, no fundo, é uma disciplina iniciática, e como tal permanecerá sempre. Pouco sabemos sobre a pessoa de Basílio Valentim, monge beneditino de Erfurt, Alemanha, autor dos famosos textos As doze chaves da filosofia e do O carro triunfal do antimônio. Mas, sem lugar a dúvidas, parece que foi um iniciado do Trecento ou, talvez, segundo alguns estudiosos, do Cinquecento, por certo um personagem da alquimia jamais discutido.

A invocação a Deus é, para cada espagirista, o início e o fim, o alfa e o ômega de toda contemplação ou operação, e sem ela não começará nada, jamais.

Eis aqui, por exemplo, uma invocação de Nicolas Flamel, alquimista do Trecento:

Deus Onipotente e Eterno, pai da luz, da qual nos chegam todos os bens e todos os dons perfeitos, imploro vossa infinita misericórdia. Faz com que eu conheça Vossa eterna sabedoria, aquela que circunda Vosso trono, que criou e fez, que conduz e conserva tudo. Envie, desde o céu vosso santuário, e desde o trono, vossa glória, para que venha a mim e em mim opere. E aquela a mestra de todas as artes celestes e ocultas, que possui a ciência e a inteligência de toda coisa. Faz que me acompanhe em todas as minhas, que, graças ao seu espírito, eu possua a verdadeira inteligência e que proceda sem erro na nobre arte à que me consagro, na busca da milagrosa Pedra dos filósofos, que vós haveis escondido ao mundo, mas que concedeis descobrir aos Vossos eleitos. Que esta grande obra para a qual sou chamado a cumprir aqui na terra, eu a comece, a continue e a complete felizmente. Que possa eu gozá-la sempre a contento. Peço isso por Jesus Cristo, a Pedra Celeste angular do milagre, fundada para a eternidade, que comanda e reina Convosco. Amém.

E aqui uma oração muito simples de Paracelso:

Ó espírito Santo, faz-me saber aquilo que não sei, e ensina-me aquilo que não sei fazer e dá-me aquilo que não possuo. Conserva meus cinco sentidos nos quais Tu, Santo Espírito, moras e conduz-me à paz divina. Oh Santo Espírito, ensina-me a maneira justa de viver com Deus e com meu próximo. Amém.

O que quer dizer contemplação da essência? Deixemos falar Basílio Valentim:

A esta verdadeira invocação ao bom Deus faz seguir a contemplação de cada coisa. Isto quer dizer que desde o começo tudo deve ser bem meditado, ou seja: As características de cada coisa, como são sua matéria e forma, em cujo princípio se encontram suas atividades, em que modo tem entrado essas e também como foram recebidas do Sideral (dos astros), como têm trabalhado através dos três princípios originais. Do mesmo modo: Como a manifestação corpórea (material) pode ser novamente dissolvida, ou seja, reduzida ao estado de sua matéria primeira ou primeira forma de ser, como tem contemplado o detalhe em meus outros escritos, de modo tal que desde a última matéria poderá reconverter-se a matéria primeira, e a matéria primeira novamente a última matéria.

Basílio nos convida a meditar bem antes de trabalhar.

O que é a preparação verdadeira e incorrupta?

Após a contemplação teórica das coisas, segue a diligente preparação prática da obra com verdadeira dedicação. Ao conhecimento se agrega o trabalho manual, e de tal modo a obra é realizada.

Segue a preparação correta.

Feita a preparação, segue o uso correto do produto. Você precisa saber as doses certas a ministrar e seus efeitos sobre o organismo, etc.

Finalmente, a utilidade:

Basílio convida o espagirista a manter uma nota escrita dos resultados obtidos, por exemplo, do uso externo e interno, o efeito sobre a enfermidade, o tempo necessário para curar, etc. Essa nota pode ser de utilidade a outros estudiosos.

Antes de pôr-se a trabalhar, deve ser bem compreendida a teoria. Estamos convidados a ler e reler os textos muitas vezes, e a meditar atentamente sobre eles.

Somente após meditar bem sobre cada detalhe da obra, o espagirista se dedica ao trabalho prático.

Contemplemos, agora, duas gravuras.

A primeira foi extraída do Musaeum Hermeticum, edição de 1677, de Frankfurt (figura 1).

Laboratorio Alquimico - Alquimia Operativa
Figura 1

A gravura demonstra como a teoria (a biblioteca) e a prática (o laboratório), devem ser unidas uma a outra para se alcançar sucesso na alquimia.

Vemos três mestres da arte alquímica: O monge beneditino Basílio Valentim, o abade Cremerus de Westminster, e o inglês Thomas Norton, autor do Ordinal of Alchemy. Este último indica com dedo o forno, onde se desenvolve um processo alquímico. Vemos no vidro uma serpente alada, símbolo de uma substância volátil. O laboratório é o símbolo da fornalha de Vulcano, e vemos a bigorna à direita. Deus serve aos três grandes mestres como operador, pondo a lenha no fogo.

A segunda gravura forma parte da obra Amphitheatrum Sapientae Aeternae do médico e alquimista Heinrich Khunrath (1560-1605) (figura 2).

Figura 2
Figura 2

O autor desta belíssima gravura é Hans Fredemann Vries, e o gravador Paullus van der Doost. A obra representa o lema de Khunrath:

PERSEVERANDO – ORANDO – TRABALHANDO

Sobre a esquerda, vemos o oratório, um pavilhão de orações. A mesa no pavilhão diz: Não faleis de Deus, sem luz. Sobre a mesa, vemos livros, desenhos com símbolos e instrumentos de escrita.

À direita, se encontra o laboratório. As duas colunas levam a inscrição Relação e Experiência.

Há uma destilação em andamento que separa a ânima e espírito. Sobre o forno está escrito: Festina lente (apressa-te devagar, ou seja, quem vai lentamente vai são). Devagar é melhor do que apressadamente. Os instrumentos musicais, símbolos da harmonia universal e da arte, se encontram no meio. A santa música, disse a mesa, expulsa a aflição e os maus espíritos, porque o espírito de Deus canta com alegria no coração onde habita a santa alegria. A porta no centro indica a meta, está longe, e fora dela é branco.

O texto sobre o arco diz: Dormiens vigila (vela no sono ou durante o sono, vigia).

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4 Comentários


  1. Olá, com paciência, humildade e determinação, pois assim
    o Espirito Santo faz com que saibamos o que não sabemos.
    Um fraterno abraço a todos.

    Responder

  2. Essa invocação de Flamel no pode estar 100% certa?! No final ele cita Jesus Cristo visto que, a letra J só foi inventado no século 16…

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