Introdução aos Princípios Gerais da Física de Acordo com a Filosofia Hermética

Introducao aos principios gerais da fisica de acordo com a filosofia hermetica - Alquimia Operativa

Não é dado a todos penetrar no santo dos santos dos segredos da Natureza, muito poucos conhecem a estrada que leva até ele. Alguns, impacientes, erram tomando caminhos que parecem encurtar a viagem; outros descobrem, que quase cada passo, encruzilhadas que os deixam perplexos, levando para a esquerda e para o Tártaro, ao invés de para a direita, para os Campos Elísios, porque não tiveram, como Enéias, uma sibila como guia. Outros pensam não estar em erro ao seguir os caminhos mais batidos e mais frequentados. Mas todos percebem, depois de longos trabalhos, que muito longe de ter atingido seu objetivos, passaram ao largo ou voltaram-lhe as costas.

Os erros têm sua fonte no preconceito, bem como na falta de conhecimento e instruções sensatas. A verdadeira estrada deve ser muito simples, pois não há nada mais simples do que as operações da Natureza. Mas muito embora traçada pela própria Natureza, e pouco frequentada; e mesmo aqueles que passam por ela tornam seu ciumento dever esconder suas pegadas com espinhos e touceiras. Caminha-se por ela apenas através da obscuridade  de fábulas e enigmas; é muito difícil não se perder, a menos que um anjo da guarda leve a tocha à nossa frente.

Então é necessário conhecer a Natureza antes de empreender a tarefa de imitá-la e aperfeiçoar o que ela deixou no caminho da perfeição. O estudo da Física nos dá este conhecimento; não o da filosofia natural das escolas, que ensina apenas especulações e acumula na memoria termos mais obscuros do que a coisa que se quer explicar. A Física, que alega definir claramente um corpo, nos diz que ele é uma composição de pontos, ou partes; de pontos que, levados de um lugar para outro, formarão linhas; estas, reunidas, uma superfície, daí a extensão e as outras dimensões; da união das partes resulta um corpo, e de sua separação, a divisibilidade ad infinitum. Finalmente, tantos outros arrazoados desta espécie, que são incapazes de satisfazer a uma mente curiosa para chegar a um conhecimento prático e palpável dos indivíduos que compõem este vasto Universo. É à Filosofia Química que se deve recorrer. É uma ciência prática, fundada na teoria, cuja verdade a experiência provou. Mas esta experiência é, infelizmente, tão rara que muitas pessoas duvidam de sua existência.

Nos autores vãos, pessoas de intelecto, de gênio e muito sábias em outros departamentos, estes quiseram inventar sistemas, para nos representar, por uma descrição floreada, a formação e o nascimento do mundo. Somos apanhados em turbilhões cujo    movimento demasiado rápido o arrebatou, e ficou perdido nele. Sua Prima Matéria, dividida em partes sutis, ramificadas e globulosas, nos deixou apenas com um tema vazio para discussões artificiosas, sem que nos ensinar qual a essência dos corpos. Outro 6, não menos engenhoso, pensou em submeter tudo ao cálculo, e imaginou uma atração recíproca, que no máximo nos ajudaria a dar a razão do movimento atual dos corpos, sem nos dar qualquer informação sobre os princípios de que são compostos. Ele sabia muito bem que isto seria reviver, sob um novo nome, as qualidades ocultas dos Peripatéticos 7, bandidos há tanto tempo da Escola; também afirmou esta atração apenas como uma conjectura, enquanto seus seguidores tornaram seu dever sustenta-la como coisa real.

A cabeça de um terceiro autor, atingida pelo mesmo golpe com que seu pretenso cometa atingiu o Sol, permitiu que seus ideais tomasse  estrada tão irregulares quanto as que ele fixa para os planetas, formados, segundo ele, de partes separadas pelo choque do “corpo ígneo” da estrela que reside o dia.

As imaginações de um Talliamed, e outros escritores semelhantes, são sonhos que merecem apenas o desdém ou a indignação. Por fim, todos os que quiseram se afastar do que Moisés nos deixou no Gênese perderam-se em seus vãos raciocínios.

Não se diga que Moisés quis fazer apenas Cristãos, e não Filósofos. Instruído pela revelação do Autor da Natureza, bem versado em todas as ciências dos egípcios, que eram mais iluminados em todas aquelas que cultivamos hoje, quem, melhor que ele, poderia nos ensinar algo certo quanto à história do Universo?

Seu sistema, é verdade, é muito adequado para fazer Cristãos; mas esta qualidade, que falta na maioria dos outros, seria incompatível com a verdade? Tudo nele anuncia a grandeza, a onipotência e a sabedoria do Criador; mas ao mesmo tempo tudo manifesta a nós a criatura, tal como é. Deus falou e tudo foi feito: Dixil et facta sunt (Gen., I). Isto foi o basquete para os Cristãos, não para os Filósofos. Moisés acrescenta de onde este mundo foi derivado; que ordem aprouve ao Ser Supremo colocar na formação de cada reino da Natureza. E faz mais: declara positivamente qual é o princípio de tudo que existe, e o que dá vida e movimento a cada indivíduo. Ele poderia dizer mais em tão poucas palavras? Alguém poderia exigir dele que descrevesse a anatomia de todas as partes destes indivíduos; e se assim o tivesse feito, teríamos por isto mais fé nele? Deseja-se examinar, e porque duvidamos. Duvida-se por causa da ignorância, e sobre um tal alicerce, que sistema se pode erigir que não caia logo em ruínas?

O homem sábio não poderia ter designado melhor a este tipo de arquitetos, estes construtores de sistemas, senão dizendo que Deus entregou o Universo a seus vãos raciocínios (Ecles., cap. III, v. II). Digamos mais: não há ninguém, versado na Ciência da Natureza, que não reconheça Moisés como um homem inspirado por Deus, um grande filósofo e um verdadeiro físico. Ele descreveu a criação do Mundo e do Homem com tanta verdade como se tivesse assistido tudo em pessoa. Mas confessemos, ao mesmo tempo, que seus escritos são tão sublimes, que não estão dentro da compreensão de todos; e aqueles que o combatem fazem-no porque  não o entendem, porque as sombras de sua ignorância os cegam, e seus sistemas são apenas sonhos loucos de uma inflada de vaidade e adoentada com demasiada presunção. Nada mais simples do que a Física. Esta matéria, muito embora complexa aos olhos do ignorante, tem um único princípio dividido em partes, algumas mais sutis que as outras. As diferentes proporções, empregadas na mistura, reunião e combinações das partes mais sutis com aquelas que o são menos, formam todos os indivíduos da Natureza, e como estas combinações são quase infinitas, o número de Mistos ou Compostos é também infinito.

Deus é um Ser eterno, uma Unidade infinita, o Princípio radical de tudo: Sua essência é uma grande luz, Seu poder é a onipotência, Seu desejo um perfeito bem, Sua vontade absoluta será uma obra perfeita. Para aquele que quisesse saber mais, restaria apenas o assombro, a admiração, o silêncio e o abismo impenetrável da glória. Antes da Criação, Ele estava como que dobrado dentro de Si mesmo, e auto-suficiente. Na criação, Ele manifestou esta grande obra que concebeu por toda a Eternidade. Desenvolveu-se por uma extensão manifesta de Si mesmo, e tornou de fato material aquele mundo ideal, como se quisesse tornar palpável a imagem de Sua Divindade. Foi isto o que Hermes quis nos fazer entender, quando disse que Deus mudou de forma: que então o Mundo foi manifestado e transformado em Luz. (Divino Pimandro, cap. I). Parece provável que os Antigos entendiam algo como isto, pelo nascimento de Pallas, emergindo do cérebro de Júpiter, com o auxílio de Vulcano, ou a Luz.

Não menos sábio em Suas combinações do que poderoso em Suas operações, o Criador estabeleceu uma tal ordem na massa orgânica do Universo, que as coisas superiores ficaram misturadas sem confusão com os inferiores, e tornaram-se similares a elas  por certa analogia. Os extremos estão unidos  por um meio imperceptível, ou nó sagrado, daquele adorável Operário, de modo que tudo obedece à direção do Supremo Moderador, enquanto a união das diferentes partes só pode ser quebrada por Aquele que as combinou. Hermes estava certo, ao dizer que “aquilo que esta embaixo é semelhante ao que está em cima, para se perfazer todas as coisas admiráveis que vemos” (Tabula  Smaragdina).

5. Teoria de Descartes, que ensinou que cada estrela era um sol ocupando o centro de uma imensa corrente circular, dentro da qual se movia cada planeta, ele mesmo o centro de uma corrente interior. Estes turbilhões, a despeito de sua desigualdade em relação ao espaço que ocupam, são, no entanto, compensados pelas relações existentes entre o volume do corpo central e a extensão da corrente.
6. Newton.
7. Discípulos de Aristóteles. Era costumeiro para o Mestre instruir seus discípulos enquanto caminhava com eles pelo campo. Daí a etimologia da palavra Peripatético, do grego “caminhar”.
 

Antoine-Joseph Pernety

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