O Helenismo

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O antigo império egípcio sobreviveu de uma forma estável durante vários milhares de anos. Do ponto de vista da história ocidental, o fato é algo quase inacreditável, pois muitas modificações e ampliações de fronteiras ocorreram.

O motivo final disso se deve ao fato de a liderança política do Egito estar interessada em governar o país visando, antes de tudo, manter e assegurar o conhecimento esotérico. Porém, como nada neste mundo é eterno, chegou o momento inevitável em que esse país misterioso teve de entregar seu papel e sua função na história da humanidade a outros povos mais recentes. Há longo tempo o sistema de iniciação egípcia era uma exclusividade destinada estritamente à classe sacerdotal: a grande reserva e o isolamento em que essa classe vivia, afastada do restante do povo, visava resguardar da forma mais inalterada e pura possível o seu conhecimento. Na época final do império, no entanto, houve o risco de se perder esse conhecimento junto com o desaparecimento da classe sacerdotal.

Enquanto na margem sul do Mar Mediterrâneo o império egípcio caía lentamente na obscuridade histórica, na margem setentrional brilhava a Grécia chegando ao apogeu. O povo grego também foi escolhido para receber em mãos os mistérios do Egito, a para resguardá-lo para a época vindoura. Isso, contudo, significa que esse conhecimento precisava ser adaptado para corresponder a esse novo povo. Um povo que segundo seu estilo, já não construía secretos e escuros templos maciços e gigantescas pirâmides, mas criava belas e graciosas estátuas e cujos templos estavam sempre inundados de luz. Essa leveza e espírito lúdico não se revelam somente nas competições dos jogos olímpicos, mas também no cuidado com a elegância com que eram cultivados o espírito e a força dos pensamentos. Para os sábios gregos, o raciocínio tinha uma conotação esportiva, associada ao esforço de vestir a profundidade dos pensamentos com uma bela e tênue roupagem. Em virtude desse fato, muitas vezes esoterismo e literatura se fundiam numa coisa só.

Essa transição foi representada principalmente pelos nomes de Pitágoras e Platão (ambos os nomes começam com a letra P, que na linguagem simbólica do alfabeto hebraico significa “boca”). De Pitágoras (cerca de 582 a 500 a.C.) praticamente não existem testemunhos diretos, embora ninguém duvide de que tenha de fato vivido. Pitágoras é conhecido, do ponto de vista esotérico, como matemático e como descobridor dos teoremas que receberam seu nome. No entanto, seu significado está na tradição do conhecimento esotérico. Ao que parece, ele visitou na sua longa vida quase todos os países do mundo então conhecido: muitos chegam a afirmar que ele teve aulas com os brâmanes da Índia, para então finalmente passar durante vinte e dois anos por todas as etapas de uma iniciação no Egito. (Esse número, por certo, também tem seu significado simbólico, pois vinte e dois é também o número de letras do alfabeto hebraico e  número dos Arcanos Maiores do Tarô). Enquanto viveu no Egito, Pitágoras foi testemunha dos crescentes ataques dos povos bárbaros provenientes do leste às fronteiras do antigo império. Com o conhecimentos consciente da aproximação do fim, Pitágoras achou que era sua tarefa salvar o antigo conhecimento para uma nova época. Não é de se excluir a suposição de que recebeu essa incumbência dos próprios sacerdotes egípcios. Depois que cumpriu seu tempo de aprendizado no Egito, ele voltou à Grécia; no entanto, não conseguindo instalar-se ali, terminou instalando-se em Crotona, no sul da Itália, onde fundou uma escola iniciática segundo o modelo egípcio. Vista de fora, essa escola apresentava grande semelhança com uma comunidade sacerdotal, na qual, no entanto, viviam juntos homens e mulheres. Quem desejasse participar dessa comunidade tinha de passar por uma série de provas difíceis, e só então era iniciado por etapas no conhecimento esotérico.

Foi assim que Pitágoras criou o que atualmente chamamos de ordens, usando uma linguagem esotérica. O imperativo superior era aqui também manter secreto tudo o que se referisse às ordens e ao seu conhecimento. Isso foi cumprido à risca. É por isso que hoje tudo o que temos sobre os ensinamentos de Pitágoras é uma “mais ou menos” bem-sucedida reconstrução. Segundo essa reconstrução, o discípulo tinha como primeira obrigação a de disciplinar o caráter e de viver sua vida pessoal de acordo com os princípios éticos das ordens. Em seguida ele era iniciado nos ensinamentos essenciais da cosmogonia (cosmogonia significa criação do mundo e o estudo do surgimento do cosmos e de suas leis). Depois, o discípulo aprendia as palavras que eram representações simbólicas das forças que regiam o cosmo e, finalmente, descobria até que ponto, como homem possuidor de uma alma, ele fazia parte dessas forças cósmica. A cosmogonia era ensinada na escola pitagórica a partir dos números e de seus inter-relacionamentos. A matemática era, de certa forma, o carro chefe do ensinamento esotérico.

Apesar do seu imenso conhecimento e de toda a sua sabedoria, Pitágoras deixou de ver um fato importante, e esse erro levou por fim a sua queda pessoal, bem como à queda da sua escola. No antigo Egito, apesar de tudo, sempre houve um elo de ligação entre a seleta classe sacerdotal e o povo, que era representado pelo rei, o faraó. Na época de Pitágoras, no entanto, mundo grego dava os primeiros passos para alcança uma forma política democrática. Isso fez com que uma comunidade tão visivelmente organizada como a pitagórica fosse vista cada vez mais como um Estado dentro do Estado e, consequentemente, fosse considerada uma rival. O severo voto de conservar secretos todos os ensinamentos e acontecimentos dentro da ordem acabou por provocar toda sorte de suposições, temores e uma sensação de ameaça. Portanto, cada vez mais a população de Crotona voltou-se contra a ordem, acabando por destruí-la com lutas sangrentas durante as quais tanto Pitágoras como vários de seus adeptos perderam a vida. Na história do esoterismo deparamos, de vez em quando, com vários acontecimentos semelhantes.

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Platão (428-348 a.C.) enveredou por outro caminho. Como discípulo de Sócrates, viu seu mestre entrar em conflito com as forças do Estado por seu um pensador autêntico, acabando por pagar com a morte. O choque parece ter acompanhado toda vida de Platão. Ele também viajou bastante pelo mundo e recebeu sua iniciação no Egito, embora não atingisse um nível tão alto como Pitágoras. Ademais, Platão reconheceu a missão, ou dela foi incumbido pelos sacerdotes egípcios, de espalhar o aprendizado dos mistérios por todo mundo helenístico. No entanto, ele se viu diante de um dilema com o juramento de sigilo absoluto que todos os que recebiam a iniciação tinham de prestar. Pitágoras resolveu esse conflito fundando uma ordem exteriormente isolada e segura, em cujo interior o conteúdo dos ensinamentos podia ser disseminado despreocupadamente. Platão, ao contrário, fundou uma escola que se integrou na vida pública e que portanto, podia ser examinada e controlada a qualquer momento. Embora isso o tenho livrado do destino de Pitágoras, foi-lhe muito mais difícil manter o juramento de secreto. Platão preservou os ensinamentos esotéricos essenciais nas entrelinhas de seus escritos; isso deu origem a um lado exotérico e a um lado esotérico de Platão. Para os ingênuos, os escritos de Platão são repletos de beleza e de sabedoria, mas somente quem, de algum modo, já alcançou certo grau de iniciação é capaz de neles também reconhecer o que é essencial e genuinamente esotérico.

O discípulo de Platão, Aristóteles, tornou-se o mestre de Alexandre Magno (356-323 a.C.). A importância de Alexandre para o esoterismo não residiu no plano espiritual, mas no político. Uma incrível e audaciosa campanha o levou até o norte da Índia. Consequentemente, houve em seu reino uma mescla de variadas culturas e influências. Seu objetivo político visava uma síntese das culturas ocidental e oriental. Embora não tivesse conseguido realizá-lo devido a sua morte prematura, ainda assim ele estabeleceu as bases para essa mescla, tanto que durante muito tempo as mais diversas correntes espirituais e culturais se uniram e se fecundaram. Com isso, surgiu a época do helenismo, tão importante para o esoterismo. Essa época é tão rica em sua multiplicidade que pode ser destacada dentro desse pequeno período de tempo. Mas também a literatura era versátil, o que permitiu que cada interessado pudesse escolher o ramo do conhecimento que quisesse aprender e divulgar.

Portanto, vimos a tradição do conhecimento esotérico no mundo helenístico. Esse conhecimento é o mesmo que ainda tem valor para o mundo moderno. Além dele, também a outra ramificação, ou seja, a iniciação foi cultivada no seu sentido original de experiência e ampliação da consciência. Isso acontecia dentro do assim chamado Orfismo e dos Mistérios de Elêusis. O orfismo recebeu seu nome do cantor de lendas, Orfeu, conhecido de todos por ter trazido sua amada esposa, Eurídice, de volta do inferno com a força de seu canto, embora a tivesse perdido novamente quando, contrariando a ordem do deus dos infernos, virou-se para olhar para ela. Orfeu era famoso devido à magia de seu canto, com o qual também encantava as plantas e os animais. Diz-se que as árvores se voltavam para ele, que os pássaros, os animais da floresta e os peixes se reuniam à sua volta, e que, enquanto cantava, os animais selvagens tornavam-se domesticados. Orfeu conseguia domar a violência onde esta existisse e obter a harmonia com seu canto, além de mover as pedras. Assim sendo, Orfeu tornou-se o representante da iniciação como ampliação e alteração da consciência. Não há dúvida de que nisso não deixa de existir um risco, o que nos mostra o mito acerca da sua morte. Ele foi assassinado pelas bacantes embriagas. O culto órfico era extático e orgiástico; o que lhe dava sentido era o fato de o homem, nesse estado de embriaguez, sentir-se e imaginar-se um com o cosmos e a natureza. O verdadeiro ensinamento dos órficos parece ter sido uma união de cultos orientais e ocidentais à natureza, do qual também não deve ser excluída certa influência do pensamento hindu.

Na cidade grega de Elêusis, no golfo de Agina, aconteciam iniciações misteriosas em alojamentos dos templos, e a forma exterior da iniciação guardava certa semelhança com a egípcia. Essas iniciações eram realizadas ali desde o ano de 1800 a.C. Seja como for, ao contrário dos mistérios egípcios, os mistérios eleusinos estavam abertos a um círculo maior de pessoas, pois no final da Idade Antiga, por assim dizer, os eleusinos tornaram a iniciação acessível a todas as pessoas. Mas, também nesse caso era feito um juramento de manter segredo sobre os fenômenos da iniciação; e é de causar espanto que, apesar do grande número de pessoas iniciadas o segredo tenha se mantido bem guardado, tanto que até hoje quase nada sabemos sobre ele restando-nos meras suposições. É provável que o conteúdo dos mistérios eleusinos seja semelhante ao dos egípcios, talvez com o objetivo de transmitir à humanidade a noção de morte e renascimento. O neófito (em grego, neophytos, isto é, o recém-plantado, ou melhor, o candidato à iniciação) era levado ao ritual de iniciação por um hierofante (em grego: “o que esclarece as coisas sagradas”), cujo objetivo era obter a pretendida experiência. Uma tentativa de reconstrução, que vale a pena ser lida, é a de Woldemar Von Uexküll em seu livro Die mysterien Von Eleusis [Os Mistérios de Elêusis], da Editora Schwake.

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