Orfismo

 

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Orfeu é uma figura lendária, de herói, semideus, filho de uma Musa (Calíope, em algumas versões) e do Rei da Trácia, Eagros (de Apolo em outras versões). Tido como poeta e músico insigne, tocador da lira de nove cordas (Nove Musas), cuja melodia paralisava homens e animais: os animais ferozes deitavam-se a seus pés como cordeiros; as árvores vergavam para melhor escutá-lo; os homens mais coléricos sentiam-se possuídos de ternura e bondade. Grande educador da humanidade, dos Trácios em particular. Iniciador dos cultos de Dionísio e dos mistérios órficos, prometendo a eternidade a quem neles se iniciasse. Autor de textos sagrados.

Como a todos os heróis místicos, as lendas multiplicaram-se: teria sido um dos mais importantes heróis Argonautas (55 seria o seu número) à procura do Velo de Ouro.

Mas a Lenda mais difundida e sugestiva, é a da sua descida e regresso do Mundo dos Mortos, o Hades.

  • “Orfeu casou-se com a ninfa Eurídice, de enorme beleza, e a quem amava perdidamente. No dia de núpcias, Aristeu, apicultor, tentou violá-la. Eurídice, ao fugir, pisou uma serpente que a picou, causando-lhe morte imediata. Inconsolável, o poeta deixa de tocar e cantar prostrado num profundo silêncio. Não conformado, resolve descer às profundezas do Hades, para a resgatar de volta ao mundo dos vivos. Com a sua lira e sua voz divina, chorando as suas mágoas, comoveu Plutão e Perséfone que concordaram em devolver-lhe a esposa. Impuseram-lhe, contudo, uma condição: ele seguiria à frente e, enquanto caminhassem pelas trevas do Hades, em caso algum, poderia olhar para trás, até que atingissem o exterior. Orfeu aceitou a imposição e iniciou a sua marcha. Estava quase a sair e alcançar a Luz quando foi assaltado por uma dúvida: e se tudo não passasse de uma brincadeira dos deuses? E se sua amada não viesse atrás dele? Não resistindo, olhou para trás, transgredindo a regra. Ao voltar-se, viu Eurídice, esvaindo-se, ”morrendo pela segunda vez…” Tentou ainda retornar, mas Caronte foi implacável na sua recusa.
  • Inconsolável, repele todas as mulheres da Trácia. Estas, enfurecidas, matam-no, cortam-no aos bocados e atiram a sua cabeça ao Rio Ebro. A sua lira foi encontrada na ilha de Lesbos, e colocada no Templo.
  • Desgostosos com esse crime, os deuses resolveram castigar a Trácia com uma peste. Consultando o oráculo para saber como acalmar a ira divina, foi dito que o flagelo só terminaria quando se encontrasse a cabeça de Orfeu e lhe fossem prestadas honras divinas. Após longas buscas, um pescador encontrou a cabeça na foz do rio Meles, na Jônia, onde foi erguido um templo a Orfeu, cuja entrada era proibida às mulheres. As nove Musas, entretanto, haviam reunido os pedaços e enterraram o corpo no Monte Olimpo, onde passou a ser um dos deuses (o 13º).
  • Por sua vez Zeus levou a sua lira para o firmamento, onde se tornou a Constelação Lira.”

Caronte - Alquimia Operativa

Os Mistérios Órficos eram um culto que pretendia explicar o começo do homem (descida da alma), a sua personalidade e o seu destino (subida da alma). Muitas das suas concepções eram comuns ao Pitagorismo, pelo que podemos ter uma ideia dos mesmos nos escritos de Platão, sobretudo em Fédon, Menon, Crátilo e Górgias.

Os ensinamentos, a liturgia, os rituais funerários, a ajuda, eram ministrados pelos Mistérios, pois o homem inteligente, conhecedor, pode escolher o lado do Bem. Não o ignorante.

Existem poucos documentos sobre estes mistérios, normalmente poemas, como os Papiros de Derveni, encontrados em 1962, e “lamelas” ou pequenas folhas de ouro, em túmulos órficos, contendo o que parecem ser instruções para a viagem da alma no caminho para o Hades, o Mundo dos Mortos. Existem referências em outros documentos (A “Teogonia de Protogono” (c. 500 a.C.); a “Teogonia” de Eudemio (c. 500 a.C.); a “Teogonia Rapsódica”; helenística, que incorporava os trabalhos anteriores) em Heródoto, Píndaro, Ésquilo, Eurípedes, Empédocles. O mais conhecido são os Hinos Órficos (87 poemas) do final da era helenística, de que se encontram várias traduções em sites especializados na Internet.

De tudo podemos retirar que a cosmogonia e teogonia órficas são parecidas, com ligeiras diferenças, com a Mitologia grega de Homero e Hesíodo.

Origem dos deuses

Diferente de Hesíodo, no início era a Noite, e não o Caos. A Noite é “a geradora universal”, como refere Aristóteles (Metafísica) e se retira do Papiro de Derveni:

  • “A Noite, de asas de breu, cortejada pelo vento, depositou um ovo nas Trevas. Desse ovo nasce Eros que dá origem à Terra (Gea ou Gaia). De Gaia, sem intervenção masculina, nasce Urano (o Céu). E enquanto a Terra-mãe (Gaia) dormia, Urano olha-se com ternura e sobre as suas fendas mais secretas faz cair a chuva fértil. E assim a Terra gerou as árvores, plantas e flores, os animais e as aves.
  • Essa chuva faz correr os rios que, enchendo os lugares mais côncavos, originaram os lagos e os mares”.

Quanto aos deuses: “Zeus é o começo, o meio e o fim de todas as coisas”.

A seguir, Zeus criou um numeroso panteão no qual é preciso salientar Dionísio-Zagreus que terá realce fundamental no culto do orfismo.

Mas tudo emanando do Uno (Mônada), para a tríade e desta para a Ogdóade de oito imortais: Fogo, Água, Terra, Ar (Urno), a Lua (Selene), o Sol (Helios) Fanes e a Noite. Os quatro primeiros elementos (deuses) são personificados pela deusa-mãe, representando Orfeu o seu filho, que vê e nomeia os deuses através de fórmulas mágicas (uma lembrança da maneira como o deus Ptah criava os deuses), fórmula essa escondida em grupos de letras (números em Pitágoras).

Em uma outra versão, na origem estava Cronos (o Tempo), a razão inicial, e dele saíram o Éter e o Caos que geraram o Ovo Cósmico, um ovo de prata imenso (daí a proibição de se comerem ovos). Desse Ovo surgiu o deus Fanes, mais tarde chamado de Eros. Após seu nascimento, a parte superior do ovo tornou-se o céu e a parte inferior, a terra. Fanes criou a lua e o sol, os outros deuses e o mundo. Zeus, contudo, engole Fanes e toda a criação. E procede à criação de um mundo novo, tornando-se, a partir daí, o criador único.

Origem do homem

O Homem é fruto de um crime: Dionísio (na sua encarnação de Zagreu) era filho de Zeus e de Perséfone (ou Semele), uma mortal. Esta, grávida, pediu a Zeus para o ver (era um verdadeiro suicídio um mortal ver um deus). Este acedeu, mas Perséfone não conseguiu suportar a luminosidade que irradiava. Morreu carbonizada e o feto foi recolhido pelo deus e guardado na sua coxa até ao nascimento. Mais tarde, os Titãs, a pedido de Hera, esposa de Zeus, raptaram Zegreu, mataram-no, cozinharam-no e comeram-no. Zeus, possesso, fulminou os Titãs, com um raio, transformando-os em cinzas, mas Hermes conseguiu resgatar o coração do menino (o coração era tido como a sede da mente). Dessas cinzas, nasceram os homens, com sua dupla natureza: o corpo, o mal, da natureza dos Titãs; e a alma, o bem, de natureza divina, uma centelha divina de Dionísio, deus da fertilidade e da morte. A verdadeira questão é saber qual a natureza que vai prevalecer (dualismo do Zoroastrismo).

Doutrina Órfica

O que nos Mistérios órficos difere bastante dos mitos antigos, são as propostas escatológicas. Para aqueles a morte é esquecimento: os mortos são aqueles que perderam a memória, o que acontece ao beberem na fonte do rio Lete. Para os Órficos estas águas do esquecimento já não fazem a alma esquecer a existência terrestre, ao contrário, fazem-na esquecer o mundo celeste e levam-na de volta à Terra, reencarnando noutro corpo, um novo devir. Não beber da água do Lete era conservar a memória de existências anteriores, e com isso o fim do ciclo de reencarnação, ou pelo menos permitir, com essas lembranças, corrigir os passos dados no caminho errado.

Rio Lete

Conhecemos melhor estas ideias por escritores e filósofos a quem influenciaram, nomeadamente Pitágoras e Platão.

Os Mistérios providenciarão instrumentos para a viagem: ritos funerários, ritos de purificação e a unção dos doentes. Pelas lamelas encontradas, forneceriam mesmo instruções para ultrapassar a viagem depois da morte e de como a alma se deveria comportar (nelas se encontra gravado um misterioso Y, e algumas continham diretivas): “À esquerda da morada do Hades, tu encontrarás o Lago da Memória, e os guardiões estarão lá. Diz-lhes… eu sou o menino da Terra e do Céu estrelado, mas estou morrendo de sede. Dá-me rapidamente a água fresca que flui do Lago da Memória”. (Para os mitos gregos “os mortos são aqueles que perderam a memória”, e esquecimento, significa o retorno à vida, pela reencarnação. Pelo que nunca deviam beber da água do Rio Letes, água do esquecimento.)

Em uma outra lamela a alma informava que pertencia a um culto de Mistérios: “Venho de uma comunidade de puros, ó puro soberano dos Infernos”. Ao que Persófone, a Rainha do Hades, replica: “Saúdo-te, toma o caminho da direita em direção aos prados sagrados e aos bosques de Perséfone”. Era o prêmio que todos os iniciados procuravam!

Os mistérios fornecerão ainda um conjunto de regras de vida (vida órfica) destinada a um bem morrer, de alma pura. Para isso deveria seguir um conjunto de regras de todo o gênero:

  • Dieta vegetariana (a alma podia encarnar em um animal), mas havia, ainda assim, alguns vegetais interditos, como no Egito. O exemplo mais referido são os feijões, embora não se saiba a explicação.
  • Constante purificação do corpo, pela água: ritos de purificação que se entendiam ao cadáver antes da alma iniciar a viagem. Purificação que se estendia às roupas, sendo interditos certo tipo de materiais considerados impuros, e ao cabelo e pelos do corpo. Pois se entendia que tudo o que era impuro era abominável para os deuses. Ignora-se se ia ao ponto de se circuncisar como os Egípcios para uma melhor higiene íntima. A purificação era não só individual como coletiva.
  • Levar uma vida de contemplação, para atingir o êxtase, um estado em que a alma se aproximava da Harmonia universal. Para tal a música era um auxiliar precioso pois proporcionava-o.
  • Participar nos rituais mágicos onde, pelo êxtase e por fórmulas mágicas o iniciado se aproximava dos deuses.

Há grande semelhança entre o orfismo e o pitagorismo: o dualismo corpo-alma, a crença na imortalidade da alma, a metempsicose, a punição no Hades, a glorificação final da alma nos Campos Elíseos, o vegetarianismo, o ascetismo e a importância das purificações. Por outro lado, o orfismo era menos elitista do que o pitagorismo, menos esotérico e não se imiscuía em política.

A Iniciação

Como todas as Escolas guardavam segredo sobre os seus ensinamentos, pelo que comportava um Juramento de Silêncio e uma Iniciação. Esta era uma opção pessoal, mas o candidato era previamente avaliado sob o ponto de vista físico, de conhecimentos e psicológico. Só depois era admitido numa cerimônia ritualística.

A iniciação devia ser semelhante a outras Escolas de Mistérios, variando no conteúdo dos ensinamentos. Constaria de um Juramento de Silêncio e de um ritual de iniciação em que o neófito era levado para uma cave onde decorria a mesma e onde lhe eram ministrados os primeiros conhecimentos escondidos nos símbolos, palavras (e números), e as fórmulas mágicas. Deveria terminar com um compromisso de honra, solene. Também ele com significado oculto para se manter secreto, mesmo que conhecidas as palavras. É referida por muitos escritores a fórmula desse juramento que apresenta várias versões muito semelhantes. “Comprometo-me a honrar e venerar, na cripta, a Eros das Montanhas, o grande sagrado carismático, a ladrar três vezes, causando medo sagrado”.

A interpretação seria a de honrar deus e venerar o seio da deusa-mãe onde se dá a concepção do Filho, na presença do deus masculino, criador, Eros e as três deusas femininas (Ereshigal, Hecate e Brimo), representando as transformações da deusa-mãe.

4 Comentários


  1. Prezado Irmão!
    Muito obrigado pelo maravilhoso material colocado a disposição.
    Que o Divino Reparador proteja sempre a tua caminhada em direção a Luz Maior.
    TFA
    Marcos

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    1. Ana Paula, para baixar os livros é necessário incluir o seu email na caixa acima. Obrigado pelo contato.

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