O casal alquímico

Em seu livro História Geral da Alquimia (leitura obrigatória na IHSA), Serge Hutin expõe uma nota interessante sobre o trabalho do(a) alquimista. Ele fala do simbolismo e da importância da cooperação entre o casal (Coração) para levar adiante o trabalho alquímico.

Não devemos deixar de estabelecer a diferença existente entre o caso (muito frequente) em que a companheira do alquimista se limita – o que já é algo importantíssimo, se pensarmos nos inúmeros casais nos quais reina a discórdia, ou um dos dois (e não será sempre forçosamente o homem) se comporta como um tirano que quer impor ao outro interesses e paixões que não são as suas… – a compreendê-lo, a ajudá-lo em seus trabalhos (o que é particularmente precioso na última fase da Grande Obra é que, vários dias e noites durante a operação, precisa da vigilância constante do forno: as possibilidades fisiológicas de vigília não são indefinidamente extensíveis na mesma pessoa) e, por outro lado, o caso, infinitamente mais raro, em que o adepto e sua esposa formam um casal mágico predestinado, onde se encontram as duas metades do ser único (o andrógino primordial, dividido por ocasião da Queda original que provocou o aparecimento da matéria grosseira que elas formavam).

A alquimia conhece vários belos exemplos dessa união mágica de dois companheiros predestinados desde toda a eternidade – se preciso, além dos imperativos da sociedade e do mundo sensível – a encontrarem-se, enfim, como corpo e alma. O exemplo mais célebre (já citado várias vezes nesta obra) é o do casal formado pelo alquimista Nicolas Flamel e sua esposa Dame Parnelle, a despeito de diferenças exteriores radicais que poderiam tornar sua união mágica impossível desde o início: ela tinha 20 anos mais do que o esposo e já era duas vezes viúva.

Mas nós poderíamos citar outros exemplos de casais alquímicos, como o formado por Jacques Coeur (o “grande tesoureiro” de Carlos VII) e sua mulher. Nesse nível da formação de um casal perfeito (o que reuniu duas criaturas magicamente predestinadas uma a outra desde toda a eternidade), descobriríamos o completo analogismo da alquimia ocidental com relação à via oriental tântrica chamada “de esquerda”, a que comporta a realização efetiva de um casal mágico. A esse respeito – é a nossa opinião – não é preciso dar o menor crédito à afirmação que de tão bom grado costuma ser feita, segundo a qual essa via, por natureza, estaria fechada aos europeus. Raras, muito raras mesmo – infelizmente! – são as criaturas, homens ou mulheres, capazes de encontrar assim o verdadeiro “duplo” mágico, sua perfeita complementaridade; pouco numerosos mesmo são aqueles que, na falta de sua verdadeira “metade” (no sentido absoluto do termo) poderão, quando muito, unir-se a um ser magicamente apto (e formado) para completá-los. Mas essa tão grande raridade de êxito a dois implicaria, acaso, uma impossibilidade natural? As duas coisas não decorrem, absolutamente, uma da outra.

O casamento alquimico - Fraternidade Alquimia Operativa
O casamento filosófico. (Gravura extraída da “Atalanta fugiens”, Oppenheim, 1618.)
O Rei e a Rainha no Ovo Filosófico. (Manuscrito alquímico de Johannes Andreae, século XV; Londres, British Museum.)
O Rei e a Rainha no Ovo Filosófico.
(Manuscrito alquímico de Johannes Andreae, século XV; Londres, British Museum.)

Além do mais, os bons apóstolos que nos vêm trautear o refrão de uma incompatibilidade natural de realização tântrica aos pares, com as condições atuais de vida que prevalecem (por certo, infelizmente, elas nem sempre são divertidas) para os atuais europeus, sempre se esquecem de dizer-nos que ela é tão raramente realizável também no Oriente tradicional. Para falar apenas da Índia, bem mais excepcionais são os homens e as mulheres (este é justamente o caso das seitas tântricas chamadas “de esquerda”, tão desprezadas pelo brâmanes ortodoxos) que poderão unir-se por uma escolha livre e consciente, já que a maioria dos jovens ainda se casam pela autoridade dos pais e, preferivelmente, numa idade muito precoce, sem que sequer lhes sejam apresentados seus futuros parceiros…

Por certo, são raras (tanto no Oriente como no Ocidente) as pessoas em condições de poder encontrar sua verdadeira “metade” mágica predestinada; e as condições que prevalecem atualmente no mundo (o que não significa, por certo, que elas tenham sido idílicas no passado) não as favorecem em absoluto: é o mínimo que se pode dizer! Mas é extremamente desagradável, segundo nossa opinião, concluir daí pela possibilidade natural de realizar essas uniões perfeitas. Contentemo-nos com a constatação (e este já é um fenômeno suficientemente trágico) de que as condições modernas de vida as tornam singularmente difíceis.

O alquimista e sua esposa, “trabalhando” de comum acordo. (Gravura do “Mutus Liber”, La Rochelle, 1674.)
O alquimista e sua esposa, “trabalhando” de comum acordo. (Gravura do “Mutus Liber”, La Rochelle, 1674.)

O homem moderno que aspira a descobrir (ou, mais exatamente, a encontrar, pois em outros tempos ele já conhecera a sua companheira predestinada – e vice-versa: o caso da mulher à procura de seu complemento masculino), acha-se em condições tão difíceis e em tanta desvantagem no início (sejam quais possam ser suas predisposições inatas a viver a via mágica a dois) como, por exemplo (a comparação surgiu de repente sob nossa pena), o matemático genial para o que teve a infelicidade de nascer numa aldeia africana de casas de sapé, longe dos circuitos escolares normais, para a realização providencial de suas possibilidades.

O ideal, por certo, seria poder, e de preferência bem cedo em nossa experiência, ver surgir – quando dispomos ainda de todo o nosso potencial de ações possíveis – a possibilidade (se estamos verdadeiramente predestinados a isso) de formar um casal tântrico.

Os mestres tibetanos da seita búdica chamada dos “chapéus vermelhos” sabem muito bem disso. Em seus mosteiros, eles unem jovens postulantes (comumente, sete ou oito monges e sete ou oito monjas, depois de terem, cada um de seu lado, feito um noviciado de um ano inteiro). Prática análoga é observada pela Confraria de Kraam (14, escadarias de Castelleretto, Mônaco – Principado), que define seus objetivos do seguinte modo:

A conjunção dos princípios opostos. (Iluminura do manuscrito “De erroribus”, de John Dastin, século XV, British Museum; foto Gallery 43, Londres.)
A conjunção dos princípios opostos. (Iluminura do manuscrito “De erroribus”, de John Dastin, século XV, British Museum; foto Gallery 43, Londres.)

“Nosso objetivo permanente é a formação de células ocultas que reúnem várias disciplinas e de onde nascem um ou vários Vasos Tântricos compostos de sete homens e sete mulheres, gerando sete casais andróginos [citado por Michel Monnereau (Annuaire Hermès – Caixa postal 17, 95190 Goussainville), p. 95. Citemos também a sociedade secreta dos Adeptos do anel.].”

Precisemos – pois é necessário – que o fato de um casal conseguir realizar a união mágica predestinada operará, simultaneamente, em cada um dos amantes predestinados o bom êxito das “núpcias interiores” entre as duas polaridades cósmicas que existem em cada homem e em cada mulher: “Assim se cria o Egregoro tântrico heptagonal, do qual decorrem a realização interior, a harmonização perfeita e a Un-idade total com as sete forças que animam a Felicidade universal (Annuaire Hermès, p. 95).”

Felizmente, acontece que duas criaturas predestinadas podem encontrar-se mesmo depois de sua primeira juventude, e comumente em condições que parecem bem mais paradoxais, mas que eles precisarão agarrar…

Além do simbolismo e da praticidade de um casal estar funcionando em parceria na Jornada, certamente irão experimentar um maior engajamento emocional, de modo a não conceberem caminhar um sem o outro.

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6 Comentários


  1. Na alquimia taoísta tratasse de processo de transcendência com consequências múltiplas. A transmutação das energias vitais provoca alterações duráveis em cada um dos componentes do casal. Fica a questão em aberto sobre se funciona na realidade quando aplicado ao modo de vida ocidental. A formação do ser andrógino.

    Em termos de alquimia operativa com minerais, o que se poderia dizer sobre este “casamento”?

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  2. Acredito que as uniões entre dois seres sejam predestinadas , mas nem sempre se tornam “mágicas “, acredito ainda que somos criados como uma unidade, cada ser nasce completo, com suas particularidades, inclinações, características e que somos atraídos a outros semelhantes a nós e que assim temos a existência dessa polaridade no nosso universo.
    Aproveitando a oportunidade quero agradecer pela chance que nos é ofertada de adquirirmos conhecimentos tão importantes e nem sempre disponíveis. Com dizem os ocultistas é chegada a hora de retirarmos o véu e espalhar todo o conhecimento até então oculto!

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    1. Com certeza. Vc está bem certa. Nas duas afirmativas. É chegada a hora. E não existe esse negocio de alma dividida com outra. A alma dividida é dentro de nós mesmos. E unida ela é completa em si. Como todos o são. O encontro é com alguém que caminhe junto na mesma direção interior, trocando apoios e esforço. Mas nunca a ilusão da dependência total do outro. Afinal a dependência nossa é só do Um.
      Fraternalmente.

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  3. Para criar a consciência criadora é necessário trabalhar com o 2º fator da revolução da consciência: a transmutação da energia sexual sem o derrame do esperma (tantra branco ou magia sexual branca).

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  4. Bem eu estou encanta com o que eu estou lendo tem coisas que eu estou vivendo sem entender .

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