Espagiria: Os três princípios filosóficos

O trabalho na espagiria vegetal consiste em separar e purificar os princípios constituintes das plantas para, mais tarde, voltar a reuni-los (Solve e Coagula), dando lugar ao que se denomina um magistério. Cabe perguntar o que são estes chamados princípios constituintes dos vegetais.

Segundo a Teoria dos Três Princípios, de Paracelso, todos os corpos orgânicos ou inorgânicos são o resultado da combinação, em proporções diversas, de três substâncias ou princípios básicos que ele denominou Enxofre, Mercúrio e Sal. Estes três princípios não coincidem com o que se entende por enxofre, mercúrio e sal no mundo moderno.

Do ponto de vista da espagiria, as plantas, como os outros seres, se encontram integradas por três princípios ou substâncias: Mercúrio, Enxofre e Sal. À respeito destes três princípios, disse Alexander von Bernus:

Os três princípios originais, ou melhor, substâncias originais, descobertas pela via da imaginação, e que estão na base de todo o universo das representações alquímicas, se chamam: Sal, Enxofre e Mercúrio… estas três substâncias estão porém longe de serem idênticas ao sal, ao enxofre e ao mercúrio; …A alquimia ensina que todo o universo material origina-se dos três princípios: Sal, Enxofre e Mercúrio, e porque um corpo tenha recebido mais ou menos de uma ou outra destas energias é mais ou menos volátil, refratário ou combustível. O sal dá a fixidez, o enxofre dá a combustibilidade, e o instável mercúrio confere volatilidade. No sentido de uma inteligência superior, o mercúrio é, porém, também a quintessência espiritual de todas as coisas, o espírito universal ou Spiritu Mundi.

O Mercúrio

mercurio-simboloO Mercúrio representa a energia da vida ou vitalidade das plantas, o que na tradição hindu se denomina prana, é a Quinta Essência ou força vital de todos os seres vivos orgânicos e inorgânicos, constitui o princípio passivo ou feminino da planta. O Mercúrio é o mesmo em todo o reino vegetal e é solúvel em álcool etílico. Por isso, este composto é denominado o portador do mercúrio ou simplesmente mercúrio. Quando se deseja obter o Mercúrio de uma determinada planta, qualquer que seja a espécie, sempre se realiza mediante uma extração alcoólica com mercúrio (álcool etílico), nunca com outro tipo de álcool.  Ainda que o denominemos da mesma forma não devemos confundir o Mercúrio (princípio constituinte das plantas) com o mercúrio (álcool etílico). O mercúrio ou álcool etílico se obtém pelo processo da fermentação alcoólica.

O Enxofre

enxofreO Enxofre representa a alma da planta, o princípio ativo ou masculino de todo vegetal. O Enxofre, diferentemente do Mercúrio, varia de uma espécie vegetal para outra e se encontra, em sua maior parte, nos óleos essenciais. Mas, existe uma parte do Enxofre que se encontra nos chamados sais do Enxofre. Por tanto, no Enxofre distinguimos duas frações:

1. A fração volátil do Enxofre, está contida nos óleos essenciais da planta, os quais são extraídos mediante a destilação. Esta fração do Enxofre possui propriedades medicinais. Destacamos que estes óleos aromáticos são muito solúveis no mercúrio ou álcool etílico.

2. A fração fixa do Enxofre, está contida no sal que se obtém secando e logo incinerando e calcinando os restos das plantas e o resíduo que permanece no recipiente de evaporação do destilador, depois de ter sido separado o mercúrio mediante o processo de destilação do vinho da planta, que se obtém na fermentação. Por sua vez, este sal se compõe de duas frações, uma solúvel e outra insolúvel na água, que acabaram de ser separadas e purificadas. A fração solúvel na água contém qualidades medicinais próprias da planta em questão.

Do ponto de vista medicinal, o Enxofre é o princípio que confere a uma espécie vegetal sua peculiar propriedade medicamentosa.

O Sal

SalO Sal representa o corpo da planta. Mas, se trata de uma esquematização do que nós entendemos por corpo de um vegetal, já que o Sal é formado pelos restos incombustíveis que resultaram da calcinação dos restos das plantas (após passarem pelos dois processos acima, do Mercúrio e do Enxofre). Dentro das cinzas completas da planta, se diferenciam duas porções:

1. Uma porção de Sal solúvel em água que geralmente é denominada sal salis e é muito apreciada na prática espagírica, porque possui um grande valor medicinal. Esta fração será adicionada às tinturas e demais elixires se quisermos que sejam um magistério completo da planta. Os sais solúveis podem cristalizarem-se, mediante a evaporação da água em que se encontram dissolvidos, formando um pó branco muito higroscópico (absorve umidade facilmente) e que deve ser mortalhado em um recipiente de vidro ou porcelana muito bem fechado (ou aquecido) para que não absorva a umidade atmosférica e desta forma adquirindo um aspecto deliquescente.

Separação do Sal Salis
Separação do Sal Salis

2. Uma porção de Sal insolúvel em água, usualmente denominada caput mortuum, que se pode separar da anterior mediante a dissolução na água e posterior filtração através  de um papel filtro. Os sais solúveis serão dissolvidos e arrastados pela água enquanto que o caput mortuum ficará retido no papel filtro. Os sais insolúveis, uma vez que tenham sido lavados com água destilada e postos para secar, não são higroscópicos e podem ser guardados em qualquer recipiente, bem fechado. Deles, não é possível extrair nada (?) e carecem de importância medicinal. Não obstante, há quem adiciona às tinturas o Sal completo da planta correspondente.

Caput Mortuum
Caput Mortuum

Não devemos confundir o Sal ou “corpo” de uma planta no sentido espagírico, com o que normalmente entendemos por corpo de uma planta. Cotidianamente, para nós, o corpo de uma planta não é outra coisa que a forma visível do vegetal, constituído majoritariamente por matéria orgânica, o que poderíamos chamar a “carne” da planta. Pois bem, desde o ponto de vista espagírico alquímico, essa “carne” ou matéria orgânica não é mais que uma impureza, um estorvo que impede que se manifestem com todo o seu esplendor e energia as qualidades medicinais que quase todas as plantas possuem em seu interior.

As potencialidades das plantas se encontram encarceradas e obscurecidas pela matéria orgânica que forma o corpo visível do vegetal, da mesma forma que nossa alma está presa no sarcófago da matéria orgânica do nosso corpo físico e só se liberta quando este se decompõe no final da vida. A substância orgânica que dá forma física ao vegetal não vem a ser mais do que o material aglomerado, o cimento, que mantém unidos em um mesmo corpo físico os três princípios essenciais constituintes dos seres vivos enquanto dura a existência terrestre.

Por isso, o trabalho da Espagiria consiste basicamente em separar os três princípios constituintes das plantas (Enxofre, Mercúrio e Sal) purificando-os ao máximo para, uma vez limpos de impurezas, voltar a reuni-los, constituindo um magistério na forma de tintura ou outro preparado que manifeste as potencialidades curativas da planta em questão.

A melhor forma de eliminar as impurezas da matéria orgânica é mediante a ação do fogo. Os restos das plantas são, em primeiro lugar, incinerados e calcinados até que sejam reduzidas a um monte de cinzas (de cor cinza claro). Assim, o autêntico corpo da planta, o Sal, terá sido desnudado da matéria orgânica, a qual se dispersará na atmosfera como anidrido carbônico (CO2) para eventualmente incorporar-se novamente ao corpo de outro vegetal graças a fotossíntese.

A Alquimia Espagírica

Alquimia Espagirica - Alquimia Operativa

As energias curativas que os tratamentos espagíricos fazem aflorar são energias sutis de origem solar que se encontram sob a matéria orgânica e inorgânica que constitui o organismo vivo dos vegetais. Se trata de energias solares muito mais delicadas, intangíveis e potentes que aquelas que se manifestam na forma do fogo visível ou do calor. Estas últimas não são mais que energias bastante físicas cuja função é manter a ordem e estruturar a matéria orgânica do corpo visível durante a vida terrestre, sendo emitidas ao término da dita existência ao mesmo tempo que o corpo visível se desorganiza e os três princípios se liberam e separam.

Uma vez que o Sal da planta tenha sido purificado, quer dizer, totalmente desprovido do envoltório orgânico, por ação do fogo (na verdade tem mais alguns processos de purificação), é impossível separar, limpar e cristalizar sua fração solúvel (sal salis) para que essas energias sutis oclusas em sua estrutura cristalina possam aflorar.

Em relação a este assunto, Alexander von Bernus transcreveu o seguinte parágrafo de uma obra de Max Retschlag, publicada em 1926:

Nossos conhecimentos sobre a constituição do corpo, a estrutura das células e das entidades viventes mais pequenas, assim como suas funções, fazem perfeitamente possível que se possa encontrar um certo remédio, constituído de energia latente e concentrada, que atue por ele como remédio universal para todas as enfermidades. Como a força vital é uma força eletromotriz, este remédio deve estar constituído de corpos capazes de liberar uma energia elétrica concentrada, depois de sua dissolução nos humores do corpo humano, do mesmo modo que existem nas pilhas galvânicas certos sais cuja dissolução produz uma corrente mais ou menos constante entre os terminais. De inumeráveis alusões feitas pelos antigos mestres herméticos, se deduz que são igualmente certos sais os que entram como material de base na preparação do elixir da vida. Estas alusões tornam a encontrar igualmente entre os pitagóricos, entre os essênios e em todas as escolas filosóficas cujos mestres haviam adquirido o mais alto grau da iniciação egípcia, tais como Pitágoras e Moisés.

O sal, enquanto que final coletivo que engloba tudo o que se cristaliza, é, segundo os antigos mestres, o primeiro ente, pois toda matéria se deixa reduzir a uma forma salina. É a palavra de Deus que virou matéria; em um sal particular, um agente celeste, filho do divino fogo solar, se une a uma forma terrestre, para dar uma forma salina.

E mais adiante comenta:

…e a verdadeira alquimia é o cozimento do sal.

A este respeito o mesmo Alexander von Bernus disse o seguinte:

No sal (compreendido no sentido mais vasto), a luz é retida magicamente cativa. Liberada novamente, isto é a alquimia, e este sal renascido é o fogo secreto dos Adeptos.

A luz magicamente aprisionada no sal e que se quer libertar dele: é aqui, sem dúvida uma noção aberrante para o Físico de hoje em dia! E porém, é assim.

Mas, para que essa energia latente no interior do sal solúvel das plantas se expresse no exterior, manifestando com força as propriedades curativas próprias da planta de que se extraiu, é necessário submeter o sal ao procedimento de abertura, que relaxa a estrutura da matéria cristalina permitindo a saída dessas forças vitais sutis, dessa luz, de origem solar. Novamente, é Alexander von Bernus quem transcreve um parágrafo de uma obra do final do século XVIII, de autor desconhecido, que se refere à abertura dos sais. Diz assim:

O sal retirado das cinzas tem uma grande potência e há muitas virtudes ocultas nele, mas Basílio Valentin escreveu que o sal não é bom para nada se seu interior não é posto no exterior e invertido. Pois é somente o espírito quem dá a força assim como a vida; o corpo por si só não tem aqui nenhum poder; se pode concluir então que se tem o sal dos mestres e verdadeiramente o óleo incombustível.

Este comentário se refere concretamente ao sal secreto dos filósofos, mas pode-se aplicar a qualquer outro sal e ao sal salis das plantas.

A abrangência da espagiria não se limita ao que foi exposto neste artigo. Mas, como todo estudo complexo, devemos iniciar pelos fundamentos.

Este artigo faz parte do material de estudo da nossa Oficina de Alquimia Espagírica.

19 Comentários


  1. Nossa,fiquei absolutamente encantada com o artigo. Gosto do assunto mas pouco conheço e fiquei muito feliz por ter conseguido, mesmo sendo leiga no assunto, acompanhar o artigo completo. Gratidão pelas preciosas informações /\

    Responder

  2. Prezados.

    Gostaria de deixar uma sugestão.

    Que houvesse a opção “imprimir artigo”, para as publicações.

    Gratidão!!!

    Responder

  3. BOM DIA. GOSTEI DA PUBLICAÇÃO. SEMPRE TIVE CURIOSIDADE SOBRE O ASSUNTO. . AGORA ESTOU , DE FATO INTERESSADO. OBRIGADO.

    Responder

  4. Iniciei essa leitura tres vezes e tive de interrompe-la, mas hoje acabei de ler todo o artigo, fiquei muito impressionada com a proximidade que há entre a Espagíria e a Homeopatia, apesar de saber que são coisas distintas. Cheguei tanto na alquimia quanto na homeopatia por gostar de Quimica, e não fiz o curso completo de espagíria ainda por que me faltou o tempo, mas ainda o farei!

    Responder

  5. Muito bom…
    Há tempos a Alquimia me interessa… só agora comecei a estudá-la…
    Grata!

    Responder

  6. É fascinante saber que a beleza das plantas vai muito além do que os nossos olhos podem ver.

    Responder

  7. Boa noite! Me tornando membro da IHSA, vocês me recomendam de fazer ao mesmo tempo o curso de Alquimia Espagírica? Ou o mesmo é indiferente do aprendizado da IHSA?

    Responder

    1. Olá, Jordan! Se o seu interesse for apenas a Alquimia Espiritual, sugiro apenas a IHSA. Caso seja a Alquimia Operativa (laboratorial), recomendo a Oficina de Alquimia Espagírica e a IHSA. O espiritual sustenta e anima o material.

      Responder

      1. Olá Daniel, irei aplicar as duas! Minha situação de início é a alquimia espiritual, mas eu irei conciliar com a laboratorial…

        Responder

  8. Bom Dia …
    Daniel faz um belo Trabalho de conhecimento e informação,estou acompanhado seu trabalhos,pela rede e acho muito interessante os assuntos abordados parabéns …
    Fraterno abraços …
    Gilmar

    Responder

  9. Engraçado que hoje mesmo acordei de manhã pensando nos três principios e quando abro meu e-mail estava lá um belo artigo sobre o assunto. Gratidao Daniel

    Responder

  10. Artigo muito bom, preciso e interessante, notadamente aos estudiosos da – Arte Real – , e a combinação – SAL – Enxofre – Mercúrio se encontra presente em algumas iniciações ou passagens !!!

    Fraternalmente

    Wanneu Prado

    Responder

  11. Importante esse artigo.
    Além de informação oferece a oportunidade do aprimoramento do que já se adquiriu.
    Gratidão!

    Responder

  12. A excelência é a alma deste texto! Complexo, profundo e inspirador! Gratidão amado!
    É o tipo de texto que merece ser apreciado diante da chama sagrada e retonado varias vezes!

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *