Goethe e a Sociedade de Eleitos

Desde quando iniciei no Esoterismo e na Alquimia, o interesse pelos aspectos históricos sempre estiveram presentes e me inspiraram à realização espiritual. Principalmente o estudo biográfico daqueles que contribuíram para o desenvolvimento das diversas correntes iniciáticas.

Por isso, compartilho uma pesquisa sobre Goethe, com uma abordagem pouco comum deste personagem.

A vida de Goethe

Johann Wolfgang von Goethe estudava Direito há três anos em Leipzig, quando uma hemorragia o levou ao umbral da Morte. Diríamos hoje tratar-se de uma doença psicossomática. Ele confessaria:

Eu era um náufrago, mais doente ainda da alma do que do corpo.

Em 28 de Agosto de 1768 ele retorna à casa familiar e seus pais o confiam ao Dr. Johann-Friedrich Metz, que o cura rapidamente, quando outros médicos haviam-se mostrado impotentes para ajudá-lo.

 Eis como Christian Lepinte evoca o doutor Metz:

Personagem enigmático, talvez preocupante em alguns aspectos, mas ativo, prestativo, cheio de consolo para seus doentes. É um verdadeiro médico na tradição dos Rosacruzes, para quem a cura do corpo deve levar à conversão da alma. Ele possui o segredo de remédios misteriosos que ele mesmo avia.

Graças ao doutor Metz o jovem Goethe não somente curou-se, mas encontrou uma vitalidade que, a partir de então, não mais o abandonaria. Foi por intermédio do mesmo personagem benfeitor e enigmático que Wolfgang viu-se admitido, em Estrasburgo, no círculo pietista de Suzane de Klettenberg.

Um Círculo Místico-Esotérico

Suzanne de Klettenberg agrupava ao seu redor, num ambiente piedoso e confiante, um certo número de pietistas e de ocultistas. Ela era depositária de uma tradição esotérica que remontava a Jacob Boehme, onde as consolações do Evangelho mesclavam-se aos segredos da Arte Real.

Foi graças a ela que Goethe leu Paracelso, Basile Valentin Van Helmont, naturalmente sem omitir Boehme, Cornelius Agrippa, Giordano Bruno e Spinoza. Ele fez da Aura catena Homeri (tratado fundamental da alquimia) seu livro de cabeceira e dele extraiu o essencial de seus futuros trabalhos científicos sobre as plantas e as cores.

Teria Goethe recebido então uma iniciação stricto sensu? É bastante provável, para não se dizer certo. Pode-se admitir que em Wilhelm Meister o doutor Metz é evocado na personagem de Makarie, e que a misteriosa Sociedade da Torre é uma alusão a uma ressurgência da Rosa-Cruz, onde Goethe teria sido admitido.

A Franco Maçonaria

Documentos verossímeis, mas não comprobatórios, tendem a provar que Goethe solicitou, em Estrasburgo ou em Frankfurt, sua afiliação à franco-maçonaria, que lhe teria sido recusada por ele ser então menor de idade.

Por outro lado, documentos de arquivo estabelecem que ele foi iniciado à Loja Amália, em Weimar, em 1780, e que foi assíduo nos trabalhos ritualísticos.

Isto, porém, não impediria que, em 1808, quando ministro do Duque Carlos Augusto, em Weimar, tenha se oposto à “construção” de uma loja maçônica.

“A franco maçonaria – escreveu então – constitui um Estado dentro do Estado. Onde tiver sido introduzida, o governo buscará dominá-la ou impedi-la de causar perturbações. Nunca é aconselhável introduzi-la onde ela ainda não se encontra.”

Goethe e os Iluminados

O ministro-conselheiro Goethe, ao longo de toda a sua fecunda existência, não deixou de manter estreitos contatos com os grupos e conventículos de Iluminados que fervilhavam então na intelligentia germânica e cujas lojas não passavam de átrios, de estágios eliminatórios (como ocorre ainda hoje em muitas Organizações).

Foi nos dois Faustos que ele exprimiu suas teorias ontológicas e metafísicas, e Paul Arnold perguntou-se engenhosamente se Mefistófeles não era mais seu porta voz do que Fausto.

As sociedades secretas sempre exerceram sobre Goethe uma forte atração. Consagrou-lhes, em sua obra, um papel importante, que ele considera sob três aspectos: pedagógico e social, político e, enfim, místico e religioso. O primeiro aspecto é representado pela Sociedade da Torre nos dois Wilhelm Meister, o segundo em Kunust und Altertum (Arte e Antiguidade) e o terceiro pelo fragmento inacabado dos Gehiemnisse (Segredos, Mistérios).

 A Sociedade da Torre

É de alguma maneira a prefiguração de uma Obediência maçônica idealizada. Cerimônias ocultas, graus iniciáticos, ubiquidade na ação, tudo leva ao mistério. E dissemos que era descrito sob os traços de Makaire, Grão Mestre não somente de uma Ordem, mas de uma Sociedade universal que dirige o mundo…

Depois de 1813, meditando sobre a reconstrução do Santo Império, Goethe busca a solução do lado das antigas corporações de Construtores. Ele queria ver nascer uma Loja universal, fortemente hierarquizada, dividida em Lojas regionais, organizada tecnicamente e socialmente, cujos membros, rigorosamente escolhidos, seriam ligados por juramentos e segredos ritualísticos, e um senso agudo da fraternidade. Sob este ângulo, podemos ver em Goethe o profeta da Sinarquia tradicional.

A Mensagem Mística

Quanto à mensagem mística de Goethe, eis aqui como a definiu Christian Lepinte:

A ideia de que uma sociedade de eleitos ou de iniciados perpetua uma mensagem sagrada (que é a própria essência de todas as doutrinas religiosas) domina o pensamento de Goethe… O poema dos Geheimnisse, nascido de preocupações espirituais, onde a influência rosacruciana desempenha um papel relevante, martela o espírito do poeta e permanecerá inacabado… A Ordem monástica cujos mistérios nos são apresentados nos fragmentos do poema, participa ao mesmo tempo da Ordem dos Templários, da Rosa-Cruz, da Franco Maçonaria e da confraria mística do Santo Graal.

Depositária da mais alta Tradição, essa Ordem ideal é a síntese das diferentes formas de espiritualidade cristã, maçônica, rosacruciana, spinozista (e portanto cabalista); Nela, a influência de Louis-Clude de Saint-Martin é evidente. No esoterismo o mistério é uma forma superior de ascese… Zacharias Werner – observa com razão Christian Lepinte – trairá a estima de Goethe por haver buscado conciliar o cristianismo e os mistérios maçônicos numa forma superior de religião universal. Nesse sentido, os Filhos do Vale marcaram época na existência goethiana.”

Magos e Charlatões

Goethe, espírito de luz, poeta apolíneo, foi ao mesmo tempo atraído, fascinado e revoltado pelo aspecto sombrio e tenebroso do Esoterismo. Esta ambivalência se reflete na psicologia e na ação de alguns de seus personagens.

Nos Anos de Aprendizagem, Mignon é o protótipo da adolescente enigmática, “vidente”, dotada, após um abalo nervoso, de poderes magnéticos, mediúnicos. Ela paga seu inefável mistério com um destino fatal, que a conduz a uma morte prematura. Ela é, de alguma maneira, a irmã dolorosa das videntes, das inspiradas que então abundavam, de Catherine Emmerich à Vidente de Prévorst.

Otília, das Afinidades Eletivas, é uma magnetizadora que se ignora. Fazendo-a viver, Goethe demonstra que todos os seres obedecem às leis da Naturfilosofia: Tudo está dentro de tudo e tudo é polarizado. Separada de Eduardo, Otília o vê todas as noites numa visão interior, como sobre uma tela. Ela “paga” esse dom de males insólitos, de alucinações e de uma morte mais singular ainda que sua vida.

Makarie

Makarie é a mais estranha e uma das mais atraentes criações do gênio goethiano. Seu sexo é indeterminado ou, mais exatamente, “ela-ele” transcende a sexualidade. Seu dom de dupla visão se estende ao Cosmo inteiro e ela-ele já tem uma amostra da luz seráfica. Makarie é destacada do corporal, do físico, não se liga mais ao mundo das aparências, a não ser por um fino mas resistente “cordão umbilical”: A Fraternidade Universal. Ao mesmo tempo “ela exige ação” e comanda com autoridade e competência seus irmãos e irmãs da Sociedade da Torre. Leonardo a definiu assim em seu Diário:

Ela é a confidente, a diretora de consciência de todas as almas aflitas, de todos aqueles que se perderam, que desejariam reencontrar-se e não sabem onde.

Em suas visões (supremo arcano) Makarie distingue um Sol interior e um Sol celeste; Ela é o microcosmo do macrocosmo. E ela se definiu: “O céu estrelado acima de mim; A lei moral em mim”.

Makarie é Goethe “tal como em si mesmo enfim a Eternidade o muda”.

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15 Comentários


  1. Prezado irmão, é de muito agrado ler tão esclarecidas linhas, espero continuar recebendo estes h e mais tarde ensinamentos, obrigado. Sempre encontrei em Goethe e também em Alighieri muitos dos pontos estudados no rosacrucianismo, penso que seria de elevada condição estes homens do passado mas também muito presentes nos dias de hoje.

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  2. Boa tarde irmão….mais uma vez me deparo com um texto incrivel e de grandes ensinamentos. Gratidão.

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  3. Muito bom o texto já conhecia bastante sobre Goethe e fiquei mais enriquecido! Mas acho que mais prática é melhor que teoria .

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  4. Como os imãs se atraem em seus polos positivos e negativos, assim eu sou atraída por tudo que é mistério e o desejo de descobrir algo que seja em beneficio da humanidade ,principalmente aquela parte mais sofredora. Não sei se estou no lugar certo

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  5. Ótimo texto, Irmão Kohen.
    De uma desenvoltura e intimidade contextual ímpar que nos remete diretamente à proposta do título.

    Obrigado por nos enriquecer de clareza e conhecimento, Irmão.

    :: Benoersuke Trismegistus ::

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