Lembranças da minha avó curandeira

Há alguns dias eu estava trabalhando com o louro (Laurus nobilis) no laboratório. Lembrei da minha avó (uma curandeira, já falecida) enquanto contemplava a bancada de destilação.

Passou um filme na minha cabeça: tudo que eu presenciei e tudo que ouvi da minha mãe a respeito dela.

Seu nome era Maria Pereira Fidelis, de Muriaé, Minas Gerais. Mudou-se para o Rio de Janeiro, já casada e com todos os filhos.

A casa era espaçosa, com quintal atrás. Tinha pé de romã, aroeira, alecrim; tinha horta, tinha frutas, tinha criação de galinhas e de porcos. Cresci nesse ambiente, simples, saudável e acolhedor. Minha mãe, a filha mais velha; eu, o neto mais velho.

Dona Maria, como era chamada, passava os dias cuidando da casa, da plantação e dos bichos.

O dia começava cedo. Antes das 5 horas da manhã, já estava de pé. Rezava, olhava para o céu e dizia se faria sol ou chuva.

Fazia defumação com ervas. Começava pelo altar, espalhava pelo restante da casa até o portão de entrada.

Uma vez por semana a gente ia na feira. Caldo de cana e bolinho de aipim eram obrigatórios na hora de ir embora, com sacolas de ervas, legumes, temperos moídos na hora. Às vezes eu ganhava um pintinho dentro de um saco de papel, cheio de furos. Morria uma semana depois.

A água não era guardada na geladeira. Tinha um filtro de barro, ao lado da pia. Cada um tinha a sua caneca.

avó curandeira
Minha avó e eu, na minha festa de aniversário. Início da década de 1980.

Quando ela sentia que alguém ficaria doente ou que algo de ruim se aproximava, chamava para fazer uma reza. Dizia que todos os avisos eram oportunidades de livramento.

Me lembro que quando tive uma inflamação na garganta, ela preparou um gargarejo com cascas de romãs.

Não lembro o motivo, mas já tomei banho de aroeira, em pé dentro de uma bacia grande de lavar roupas. Às vezes o banho era de várias ervas.

Haviam dias em que apareciam muitas pessoas, conhecidas e desconhecidas, para serem benzidas.

Meu avô, que era marceneiro, fez um banco de madeira, bem comprido, para as pessoas aguardarem a vez. Elas ficavam aguardando no corredor lateral da casa. O atendimento era feito nos fundos. Nesse dia, o portão ficava aberto.

Eu era uma espécie de ajudante. Quando algum desavisado batia o portão, eu abria novamente; pegava água quando alguém tinha sede; pegava alguma coisa na cozinha quando minha avó pedia; pegava mais ervas no quintal.

Quando todos iam embora, eu pegava uns galhos de arruda que encontrava no chão, e fingia que benzia minha mãe, repetindo os movimentos que minha avó fazia e balbuciando as rezas. Minha mãe repreendia: “para com isso menino”, isso não é brincadeira!

Minha avó dizia que era uma tradição passada de geração para geração. E, que é um dom dado por Deus. “A gente reza, a gente benze, mas é Deus quem cura”.

Somos instrumentos. E devemos nos manter dignos para continuar sendo um canal de cura.

Uma vez ou outra, minha avó me levava para visitar um sítio de uma conhecida. Passávamos o dia. Era um lugar mágico. Me lembro das árvores, dos passarinhos cantando, de cachorro correndo, patos e um pequeno lago. Existia algo de extraordinário naquele lugar insólito.

Quando eles iam coletar ervas em um ponto mais afastado, ela não me deixava ir. Dizia que era só “os mais velhos”.

A conexão com a terra, com as ervas, com as plantas e os animais sempre foi muito forte. Os sinais da natureza nos ensinam como viver e como sarar as moléstias do corpo e da alma.

Ela tinha um quartinho nos fundos da casa. Havia um altar cheio de imagens. Era comum ter uma vela acesa. Havia uma fonte d’água com pedras trazidas da cachoeira e conchas do mar. Adorava arrancar folhas do pé de bertalha e colocar na fonte; fingia que eram barquinhos.

Hoje, quando realizo um benzimento, com ervas ou com incenso, lembro da minha avó. Me sinto conectado. Às vezes, sinto um arrepio.

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12 Comentários


  1. Olá Daniel,fiquei encantada com seu relato e agora tudo faz muito sentido pq assistindo seus vídeos sinto a sua simplicidade e respeito pela vida, pela natureza….enfim, a sua linda história de vida traz nela o que vejo em vc. Fiquei inspirada. Gratidão por compartilhar. /\

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  2. muito lindo daniel quando era crianca me benzia medico nenhum fazia o que a benzedera
    faziia me tirara tudo tava de cama sem forca pra levanta ai vinha aquela senhora me benzia
    e tudo passsava DEUS ABENCOE ESTES SERES CHEIOS DE BONDADE E AMOR AO PROXIMO

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  3. Que encantadora recordação da sua infância, Daniel. Seu amor à medicina natural é uma herança
    espiritual da sua avó. Que esse seu dom de estudar as leis naturais da saúde lhe traga cada vez mais aprimoramentos para passa-los adiante. Nós te agradecemos.
    No meu tempo de criança morava longe dos hospitais e nem postos de saúde havia. Minha mãe
    me tratava com plantas, óleo de rícino e biotônico fontoura e também recorria a benzedeiras.
    Cresci com muita saúde, sem vacinas e antibióticos.

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  4. Mestre Daniel Fidélis!
    Saudações Fraternais!

    Me identifiquei muito com seu relato, minha infância foi muito parecida com a sua, minha falecida mãe também era mineira, de Carangola, por isso que me sinto meio perdido quando me afasto das minhas origens. A nossa irmã colocou muito bem qua do disse que somente a reza conseguia levantá-la dá cama. De fato existem curas que só o poder Divino pode fazer, por isso estarmos sempre conectados é essencial para uma transformação interna, pois só assim a cura de concretizará. Lembro de uma passagem bíblica em que nosso Mestre Jesus diz ao homem doente: A sua fé te curou” ou seja, ele acreditou que seria curado, ele se conectou com a energia curadora de Jesus.

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  5. Fico agradecida e emocionada por compartilhar uma parte marcante de sua história conosco! Nós devemos muito aos nossos antepassados, por tudo que eles nos ensinaram e/ou nos deixaram de herança, esta de valor distinto dos bens materiais, algo que o dinheiro não pode comprar. Por isso tanto devemos honrá-los e reverenciá-los, como aqui você fez nesta linda lembrança de sua vó. Fraterno abraço!

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  6. Cresci em um ambiente assim, porém meus pintinhos não morriam uma semana depois e sim iam para a panela depois de crescidos.
    Sou extremamente agradecido por ter sido agraciado pela oportunidade de ter crescido na simplicidade e convivência de todos os meus avós e ainda um bisavô e uma bisavó.
    Muito do que sou hoje devo a eles e me orgulho disso imensamente.
    Gratidão demais por todos eles.
    Abraço fraterno.

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  7. Lindo relato Daniel! Quando eu era criança e era levada para ser benzida, sentia muito medo, mas ao mesmo tempo, muita curiosidade e um tinha um certo encanto por aquilo, mesmo sentindo medo. Cresci ouvindo histórias de curas feitas através de benzimentos, rezas e simpatias. Lembro que tinha uma tia que “tirara o sol da cabeça” com um copo de água e umas rezas, as quais não compreendíamos porque eram feitas em sussurros. Hoje tenho verdadeiro fascínio e respeito por esse trabalho e por essas pessoas. E sou muito grata a todas as pessoas que estão trazendo de volta essas práticas milenares que estavam quase se perdendo, e agora não só estão de volta, como estão sendo respeitadas por muitos, sendo banido todo o preconceito que envolvia esse tipo de trabalho. Gratidão por seu relato. Luz e bênçãos! Blessed be!

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  8. Por estes dias, minha neta de 02 anos , ñ estava conseguindo dormir e chorava muito, eu dormi e sonhei qe pegava ramos de alecrim, tenho um pé bem grande em casa, e em sonho eu passei os ramos na criança, e sei qe ela dormiu, segundo a minha esposa. Goste muito da sua narrativa e eu quando criança passei por parte de tudo isto…
    Gostaria de saber se tenho o dom, pois gosto muito de ervas. Como eu fico sabendo.. Eh a minha esposa apesar de cetica esta estudando sobre ervas medicinais..Um abraço.

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    1. Olá, Aparecido. Obrigado por prestigiar o blog. O dom é dado por Deus àquele que se dispõe a trabalhar. Comece a servir…

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  9. Lindíssimo relato de suas lembranças com sua avó. Grande abraço e muita paz!

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  10. Adorei conhecer um pouco da sua história pessoal. Minha avó, muito devota de Padre Cícero, também tinha o dom de saber utilizar as ervas. Era uma mulher simples e também tinha uma casa com quintal e muitas plantas. Ela adora as rosas. Conversava com elas ! E dizia que era importante manter esse contato. Minha já faleceu, porém me ensinou a rezar e também o amor à terra. Agora adulta, comprei um sítio há 20 anos. Nele, minha filha pode aproveitar melhor sua infância, brincando com os cachorros, andando a cavalo, tomando banho nas “abobas” (grandes buracos cheios com águas da chuva), como chamamos aqui no Ceará.

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  11. Que linda lembrança. Perdi recentemente minha avó. Ela era filha de índia, possuía os a sabedoria que se passa de geração em geração e não se encontra nos livros. Foi minha benzedeira, minha anciã, meu guia, a maior fonte de amor que conheci. Também me sinto conectada ainda.

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